Duda Santos é capa da Glamour de Janeiro
Aos 23 anos, a atriz está pronta para seguir em voo solo. Vivendo sua segunda protagonista, ela mostra que o presente é o melhor momento para fazer história na TV e realizar seus sonhos na vida pessoal
Chamar Duda Santos de "Garota do Momento" é tudo, menos piegas. No ar como a protagonista das 18h na Rede Globo, a carioca de 23 anos enche o peito e a boca ao brincar com o termo que é também título da novela: "Finalmente entendi que posso ter essa posição de destaque e, sim, ser a garota do momento".
A pouca idade não esconde a potência de Duda dentro e fora das telas. Ela transborda ao falar dos primeiros passos no mundo artístico: foi modelo de lojas da sua comunidade, a Vila da Penha, no Rio de Janeiro, até realizar o primeiro teste para a TV, na temporada de "Malhação" de 2019, quando as portas da maior emissora do País se escancararam para ela. "Cresci vendo uma televisão carente de mulheres pretas."
Em cinco anos de carreira, ela já soma quatro folhetins no canal, incluindo a tão sonhada Maria Santa, no remake de "Renascer", e faz parte da nova leva de atrizes que fazem história nas telas, ao lado de Gabz e Jéssica Ellen. Pela primeira vez, as três protagonistas das novelas que estão no ar são mulheres negras. "Representatividade é se sentir possível – e o audiovisual chega na casa de muita gente. Acho importante essa posição e é mais fácil quando não estou sozinha", diz, exaltando as suas companheiras de profissão e toda uma geração responsável por essa mudança.
Em 2025, ela não vai parar: a carioca já tem um filme, "Funk", no qual interpreta a funkeira de sucesso Sabrina, além de uma personagem em "Guerreiros do Sol", nova novela exclusiva do Globoplay, com estreia prevista para abril. No âmbito pessoal, o ano segue com uma decisão que virou Maria Eduarda de cabeça para baixo: saiu da casa da mãe e morou sozinha pela primeira vez. "Sou a mais velha de quatro irmãos. Costumo dizer que aprendi a amá-los antes de aprender a me amar", conta. No processo de autoconhecimento profundo que veio com a decisão, ela ainda descobriu o quanto a maturidade da pessoa física influencia na pessoa jurídica que é hoje. "Eu só ia conseguir evoluir como atriz se eu me jogasse na vida", diz, com a alegria e firmeza de quem está pronta para aceitar novos desafios. Como ela comprova na entrevista a seguir:
Você sempre quis ser atriz?
Sempre soube que queria ser artista. Sou da Vila da Penha, no Rio de Janeiro, e fui criada pela família da minha mãe, que não tem nenhuma influência no meio – tudo o que eles sabem sobre esse mundo eu que apresentei. A única referência era aquilo que viam na televisão. Cresci com um audiovisual carente de mulheres pretas como eu. Quando eu tinha uns 15 anos, comecei a fotografar para as lojinhas da minha comunidade, até que um dia, aos 18, recebi um convite para um teste em Malhação.
Como foi esse primeiro contato?
Minha mãe falava: "Filha, você não vai passar, mas está tudo bem. Você vai aprender e vamos conseguir entrar neste mundo", e eu fiquei: "Bom, eu não vou passar, mas vou estudar, né?". Estudei muito, sou ambiciosa, sabe? Cheguei no teste de Malhação e lembro de ver várias meninas e me impressionar que elas faziam teatro. Ali, eu senti a arte. Quando perguntaram quem queria ir primeiro, levantei a mão e falei: "Eu vou!". Lá dentro, parece que virei uma chavinha, parei de ficar nervosa e fiz o teste. Quando acabei, pensei: "Ué, é isso? Quero mais um". Me levaram até a porta, falaram para a minha mãe o quão maravilhosa eu tinha sido e avisaram sobre o retorno por telefone. E não é que me ligaram? Tinha passado para ser a Paula, personagem que entraria para mexer na trama.
A temporada e a sua personagem em Malhação foram cortadas por causa da pandemia. Como foi lidar com isso?
Ao mesmo tempo que consegui parar, refletir e de fato começar a entender como as coisas funcionavam, foi um momento difícil. Fazia um teste atrás do outro e não era aprovada em nenhum, mas não deixei de estudar. Era difícil manter a esperança. Até que em 2021, passei para fazer meu primeiro filme e ele me levou para várias primeiras coisas: primeira vez que morei em São Paulo, primeira vez que morei longe da minha família…
Você é bem próxima da sua família. Como foi sair de casa em 2021 e, definitivamente, em 2024?
Um desafio. Minha vida toda, eu vivi muito por eles. Sou a mais velha de quatro irmãos, minha mãe trabalhou fora desde quando eu era nova, então sempre cuidei deles. Vivemos em uma casa cheia, um dentro da vida do outro. Costumo dizer que aprendi a amá-los antes de aprender a me amar. Me olhei pouco. Foram esses alguns dos motivos para sair de casa.
E o que aprendeu?
Existe um momento da vida que se não vermos quem somos, acabou, não construímos nada. Eu não conseguia enxergar as minhas vitórias individuais: ter um amor, uma carreira, amigos, uma casa… Até hoje tenho dificuldade, meus irmãos e minha mãe são tudo para mim, tudo o que faço, eu lembro deles. Mas, agora, eu comecei a entender o que eu gosto de fazer, comer, a que horas posso levantar – e não é mais a hora que a Maria Paula vai para a escola. Que horas eu quero acordar? Quais são minhas prioridades?
Você disse que aprendeu a amar seus irmãos antes de se amar. Dá para falar agora que a Maria Eduarda se ama?
Se amar é um processo, né? Acho que sim. Nunca foi uma questão de desamor, eu só não tive tempo de olhar para esse amor. De me enxergar como prioridade. E também existe toda a questão de como eu entendia os afetos. Achava que era fazer tudo pelo outro, renunciar o meu para dar ao outro, mas finalmente compreendi que o amor só brota pelos outros quando nos amamos primeiro.
Todas essas mudanças pessoais te ajudaram na construção da profissional que você é hoje?
Entender quem eu sou me permitiu contar histórias, posso ser a Duda atriz. Quando a gente faz um teste, quando a gente é escolhido para dar voz ao personagem, tudo parte de quem somos no CPF, além do profissional. Eu só ia conseguir evoluir como atriz se eu me jogasse na vida, se eu entendesse o que eu gosto, como eu sou. Acho que vamos morrer sem saber quem somos 100%, mas é importante se manter nessa busca. Pego um pouquinho de todas. Acabo vivendo mais aquela pessoa do que eu, né?
O quanto das personagens que você viveu existem na Maria Eduarda?
Apesar de ter aprendido a desligar, saber o que é problema meu e o que é da minha personagem só com a Maria Santa. Quando vivia com ela, por exemplo, fiquei tímida por um tempo, a personagem aflorou isso em mim. Ela era muito retraída, inocente, mas, ao mesmo tempo, carinhosa. Eu cresci uma menina sorridente, que escuta os outros, mas sinto que perdi isso ao longo dos anos. Fui ficando dura, com medo, e Maria Santa me tirou desse lugar. Foi ela também que desabrochou ainda mais o meu sonho de ser mãe.
Capas 2024:
- Agatha Moreira é capa da Glamour de outubro
- Luísa Sonza, Agnes Nunes e Maria Luiza Jobim estrelam as capas da Glamour de setembro
- Rafaela Azevedo é capa da Glamour de agosto
- Jéssica Ellen é capa da Glamour de julho
- Sasha Meneghel é capa da Glamour de junho
- Iza, Alice Wegmann e Maisa estrelam as capas da Glamour de maio
- Bella Campos é a capa de abril da Glamour
- Kenya Sade é a estrela da capa da Glamour de março
- Klara Castanho é a capa de fevereiro da Glamour
- Manu Gavassi é a capa da Glamour de janeiro
E a Beatriz, sua garota do momento?
A Bia chegou na hora que eu estava preparada para aprender a me impor e me jogar nas coisas. A falar sem medo, aceitar que eu posso ser essa pessoa. Estou aprendendo a ser a garota do momento junto com a Beatriz. Ser uma heroína, ser uma princesa preta. É tão importante ter essa imagem representada para que minha mãe, minha irmã, o mundo possa ver que podemos ser essa pessoa.
Estamos vivendo uma era na qual, das três novelas no ar, todas contam com protagonistas negras. Para uma menina que não se via na TV, como enxerga essa virada?
Demorou, mas chegou, né? É um momento bonito para o audiovisual e para nós. Podermos nos ver possíveis, ver nossas histórias sendo contadas a partir da nossa visão, da nossa voz. E não só para a gente, mas para quem está vindo aí. Se ver sendo quem quiser: princesa, cozinheira, médica, atriz… Representatividade é se sentir possível e a televisão chega na casa de muita gente.
Quando você entendeu que estava nesta posição?
Essa é uma luta de muita gente e eu faço parte dela. Sabemos que é um lugar importante, mas quando ele vira nosso, aceitamos. Sentei em uma cadeira e falei: “bora”. Todo mundo trabalhou demais para que eu pudesse estar aqui, e eu não estou sozinha. Tem um monte de gente representando essas histórias comigo na minha novela; a Gabz e a Jéssica [Ellen] nas respectivas novelas. Estamos juntas tendo essa oportunidade de mudar o mundo e fico tranquila em saber que divido essa responsabilidade.
Onde quer estar daqui a um ano?
Quero continuar trilhando este caminho, trabalhando com o que acredito. Espero aprender e me tornar uma profissional cada vez mais competente para fazer meus personagens com propósito. E também desejo resgatar a minha crença no amor, continuar a me conhecer.
Redatora-chefe: Bárbara Tavares. Edição de arte: Victoria Polak. Styling: Cacá Portela. Beleza: Carla Xane. Assistente de beleza: Lolla Coimbra. Assistente de styling: Hannah Rodrigues, Helena Ferraz e Vic Moulin. Assistente de fotografia: Jozzuu. Vídeo: Vagner Fernandes Direção executiva: Monica Borges. Produção executiva: Leila Ferrell, Monica Borges e Thiago Isaac. Coordenação de produção: Isabela Macedo. Catering: Ricardo Barletta. Motoristas: Gislaine Mattos, Neemias Moreira e Wesley Nascimento. Tratamento de imagem: Victor Wagner.









