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Revisitar memórias não é tarefa fácil. Exige força e coragem. Lina respira fundo antes de responder. Às vezes pausa, silencia, procura a palavra certa – ou aceita não encontrá-la. Fala com cuidado, como quem aprendeu que existe bravura no gesto de se demorar. Aos 34 anos, a cantora, compositora, atriz e escritora vive um momento de retomada. "Sinto como se eu estivesse vestindo a minha pele novamente. Estou reaprendendo a me ser", diz.

Criada no interior de São Paulo, ela cresceu cercada pela religiosidade e por uma busca precoce por amor e pertencimento. "Uma infância marcada pela falta – mesmo que eu não tivesse noção dessa falta", lembra. Mas, ao longo da vida, Lina transformou a ausência em presença: nos palcos, nos álbuns, nas telas, no ativismo e em tudo o que se propõe a fazer.

Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil
Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil

Em 2022, ao entrar no Big Brother Brasil, ofereceu ao País a oportunidade de conhecer quem estava por trás da Linn da Quebrada : mostrou-se frágil e humana. "O Big Brother me deu o privilégio de entrar em contato com a minha vulnerabilidade", revisa.

Agora, em 2025, Lina emerge de um período de silêncio e cautela. Após duas internações, fala sobre sua luta contra o abuso de substâncias, o exercício de aceitar ajuda e o desafio de reaprender a estar consigo. "É um processo que precisa de cuidado", afirma. Ao mesmo tempo – e como quem sabe que a arte tem superpoderes –, volta aos palcos, se emociona ao se ver nas telas no filme Vitória, prepara um novo álbum e mergulha na escrita do seu primeiro livro: "Talvez seja a Linn da Quebrada que vá me salvar aos poucos".

Nesta entrevista, a artista compartilha com honestidade os desafios em cuidar da saúde mental, a dificuldade em aceitar que precisava de ajuda e a coragem de se abrir para o acolhimento. Fala sobre como a arte, a escrita e o afeto têm sido ferramentas fundamentais no seu processo de cura. "Me vejo corajosamente assumindo o papel de artesã de mim mesma", celebra.

A seguir, confira uma prévia deste papo íntimo e corajoso, onde ela nos convida a refletir sobre recomeços, autoconhecimento e a arte de habitar o próprio vazio.

Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil
Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil

A gente sabe que você está vivendo uma fase bastante sensível no momento, né? Como você está se sentindo com tudo isso? Você está bem?

É um momento de retomada. Eu sinto como se eu estivesse vestindo a minha pele novamente, sabe? É um período sensível, delicado, mas também de celebração. De me encarar com respeito e cautela. Tenho retomado minhas apresentações e ocupado novamente o meu espaço nos palcos. Estou reencontrando esse lugar artístico, que é o meu lugar. Também tenho escrito bastante e revisitado os meus diários, que vão virar um livro, a convite da Editora Planeta. Tem sido um momento de me rever internamente de forma intensa. Então, tenho voltado não só a mim neste momento, mas a outras versões minhas também.

Como tem sido todo esse processo?

É um processo que precisa de cuidado. Acho importante que as pessoas saibam que isso leva tempo. É um corpo que está adoecido. Uma mente adoecida. Agora, eu tenho cuidado de mim e estou aprendendo a me deixar ser cuidada. Não é fácil. Não é fácil tocar nesse assunto, não é fácil se deixar ser cuidada, e também não é fácil cuidar de si. A gente quer ter o controle de tudo – e isso torna o processo mais difícil. Mais uma vez, estou aprendendo a lidar com as vulnerabilidades do meu corpo.

Eu sinto o quanto o uso de substâncias está ligado a uma espécie de automedicação. De um lugar de querer anestesiar uma sensação de angústia muito grande, sabe? Acho que isso também vem de encontro a esse lugar de ignorar alguns traumas. Vejo, principalmente nesse processo terapêutico, como se para muitas coisas – inclusive sexualmente falando –, eu simplesmente não tivesse olhado. Sabe quando você passa por algo e não olha? Você simplesmente vai, passa por alguns traumas, e eles deixam efeitos. Mas você ignora e continua caminhando.

Acho que algumas experiências deixaram marcas. Deixaram um vazio e uma angústia muito grande que, de alguma maneira, equivocadamente, eu achei que pudesse suprir ou tampar com o uso de substâncias. Então, está sendo um processo de muito aprendizado e de cautela. Um processo bonito onde tenho recebido muito amor. Quando se olha para um processo de abuso de substâncias, ou de recuperação, é disso que a gente precisa: de amor. Esse corpo está precisando de cuidado. Está precisando reconstruir um cenário de amor. Porque eu sinto que a substância tenta suprir espaços vazios onde houve falta de amor. Ainda estou tentando entender. Tudo é muito novo para mim, mas vejo como as substâncias aparecem tentando preencher um vazio. Uma lacuna de afetos. Consequência de como a gente não aprendeu a cuidar de si mesma.

Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil
Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil

E como você tem preenchido esses vazios?

Estou aprendendo a cuidar desses vazios e, mais do que isso, a habitá-los. Escrever tem sido uma grande ferramenta nesse processo. A terapia é fundamental para aprender a lidar com esses espaços internos. Saber pedir ajuda também é essencial – é parte de um caminho de reconexão consigo mesma.

Sabe quando você encosta o ouvido em uma concha e ouve o som do mar? Acho que é mais ou menos esse lugar. Escutar o próprio vazio. Entender como conviver com ele, com você mesma. E essa, para mim, é a grande dificuldade: me relacionar comigo. Lidar com essa angústia. Porque, quando as substâncias saem de cena, o que fica? O que resta? É agora que eu vou aprender. Esse é um processo longo, e o que estou entendendo é que o que resta é a angústia.

Então, eu escrevo. Tenho lido bastante. Tenho me ocupado de simplesmente ser. Acho que esse é um processo muito bonito: conseguir estar comigo mesma, em silêncio. A arte tem sido uma das minhas maiores aliadas. Voltar a fazer aquilo a que eu, enquanto Lina Pereira e Linn da Quebrada, estava habituada. Talvez seja a Linn da Quebrada , mais uma vez, que vá me salvar aos poucos. Tenho dito que, quando vem a fissura, eu me dou mais uma dose de escrita. Me dar essa dose de escrita é me dar orgulho. É a chance de me reconectar comigo mesma, sabe? De alimentar o vazio com serenidade. De simplesmente habitá-lo – não lutar contra ele, mas aprender a estar nele.

Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil
Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil

Quais são seus desejos daqui para frente para a sua carreira?

Quero muito fazer meu novo álbum, Fogo Fátuo. Esse momento de criação é especial para mim, porque exige muito – é um processo intenso fazer um disco vir ao mundo. Também quero focar na volta aos palcos e aproveitar ao máximo esses shows. O livro está vindo aí, e há algumas chances de voltar às telas, de assumir um novo papel – mas, por enquanto, são apenas possibilidades. Meus sonhos mais ferventes agora são estes: voltar à música, escrever e estar no palco novamente.

Como tem sido voltar aos palcos? Te dá frio na barriga?

Uma loucura, menina. Eu sempre fico muito ansiosa, mas também sempre é revigorante. É como morfar e me tornar a Linn da Quebrada de novo. Como se eu assumisse essa força que ela é e tem. Tenho feito isso com muito cuidado, porque é um momento que exige muito de mim. Um ritual: estar diante do público e me vestir de mim mesma. Sinto que estou reaprendendo a me ser. A ocupar esse espaço de um novo jeito. Com outro olhar, outro ponto de vista.

Que mundo você deseja para o futuro, Lina?

Um mundo onde a gente possa viver com serenidade, e também com a máxima intensidade possível – na sua plena medida. Um mundo em que a gente possa imaginar – imaginar o impossível, para que o impossível possa acontecer.

Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil
Linn da Quebrada é capa da Glamour de junho — Foto: Thais Vandanezi | Glamour Brasil

Entre tantas versões, quando você olha para a versão da Lina de hoje, quem você vê?

Eu vejo uma Lina ainda em construção. Uma Lina que está se fazendo. Quase como uma menina, mas uma menina mais madura. Vejo uma Lina corajosa, mas também muito medrosa. Uma Lina inacabada, em processo, sendo preparada. Acho que me vejo em movimento, em devir. Me vejo corajosamente assumindo o papel de artesã de mim mesma. Me moldando com as próprias mãos, porque quero o melhor para mim. Quero viver o que a vida tem de bom a me oferecer. Vejo uma Lina com coragem de criar, artisticamente, sobre si mesma – mais uma vez.

Texto: Malu Pinheiro. Fotos: Thais Vandanezi. Direção criativa: Bruna Bismara. Styling: Sam Tavares.Beleza: Angel Moraes. Nail artist: Lorena Moura. Set design: Arthur Corumbá. Vídeo: Olivia Mucida. Imagens de backstage: Lucca Miranda. Produção executiva: ODMGT. Coordenação de produção: Octavio Duarte (ODMGT). Produtores: Beatriz Dallolio e Eduarda Heinlik. Produção de moda: Anne Carvalho e Elias Assef. Assistentes de foto: Fernando Bentes, Rodrigo Oliveira e Augusto Anjos. Assistente de beleza: Carlaxane. Assistente de nail artist: Victória Bastos. Assistentes de set design: Caio Carvalho, Mickail Vilhena e Ruan Ribeiro. Assistentes de vídeo: Luisa Dalé, Lara Domingues e Juliana Palladino. Edição de vídeo: Marcus Ramos, Cristiano Farias e Ian Pasqualino. Tratamento de imagem: Telha Criativa. Camareira: Dulce Silva. Catering: Daniela Batista.

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