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Luiza
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Por Luiza Brasil (@mequetrefismos)

Luiza Brasil é empresária e jornalista dedicada a pautas que abordam o protagonismo racial e foco em moda, bem-estar e empreendedorismo feminino


Fui criada no catolicismo, com primeira comunhão e tudo. Na adolescência, porém, não me conectei mais com essa religião. Os motivos? Falta de sinergia com a forma polarizada de entender sagrado e profano, ausência de identificação com símbolos e alguns dos ritos mais tradicionais, e até a dinâmica das missas, com formato pouco empático às necessidades dos jovens. Sei que existem espaços que modernizaram o ambiente católico, mas a chave já tinha desligado.

“Não acolher a influência do candomblé e da umbanda é reafirmar o sequestro de identidade” (Foto: Arte Domitila de Paulo) — Foto: Glamour
“Não acolher a influência do candomblé e da umbanda é reafirmar o sequestro de identidade” (Foto: Arte Domitila de Paulo) — Foto: Glamour

Hoje, acredito na fé, nas forças superiores e no poder das energias para o mover o mundo. As minhas buscas incluem a umbanda, o daime e a Igreja Anglicana. Ainda não finquei raízes em nenhum lugar, mas não sinto culpa por isso – um misto de terapia com o entendimento de que podemos ser tudo isso sem, necessariamente, estar em uma religião.

E, quando falo isso, não quero atropelar o comprometimento e as responsabilidades de qualquer acordo religioso. Mas, ao refletir sobre devoção pelo viés dos cultos dos povos originários e afrodiaspóricos, toco em algo maior que uma instituição: a ancestralidade.

Para mim, é arrepiante o som dos atabaques ou o recorte das entidades, que nos remetem a características humanas de qualidades e defeitos. A celebração que, mesmo em rituais abundantes, tem a generosidade dos pés no chão e do diálogo acessível. Enalteço, celebro, respeito e honro o que as religiões de matriz africana me fazem sentir enquanto resgate.

Infelizmente, não podemos apenas romantizar toda a beleza e relevância cultural que habita neste sagrado. No Brasil, o número de denúncias de casos de intolerância religiosa aumentou 56% no primeiro semestre de 2019 se comparado a 2018, segundo pesquisa do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, publicada em 2020. Dados ainda mais expressivos se pensarmos na quantidade de terreiros depredados ou de praticantes agredidos.

A naturalização do discurso de ódio, a omissão do Estado e a demonização das religiões de matriz africana formam mais uma sequela do “a história que a História não mostra”. Para evitar o silenciamento, temos nomes como o professor e babalorixá Sidnei Nogueira. Em seu necessário livro Intolerância Religiosa, da coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro, ele aborda os caminhos que levam a comportamentos tão intolerantes quando falamos de fé. “O racismo religioso quer matar existência, eliminar crenças, apagar memórias, silenciar origens. É a existência dessas epistemologias culturais pretas que reafirmam a existência de corpos e memórias pretas [...] Aceitar a crença do outro, a cultura e a episteme de quem a sociedade branca escravizou é assumir o erro e reconhecer a humanidade daquele que esta mesma sociedade desumanizou e matou”, escreve.

Temos influência sociocultural do candomblé e da umbanda nas mais populares vertentes musicais, hábitos e alimentação do País. Quem aí nunca se questionou porque usamos branco no Ano-Novo? Fazer com que a nossa sociedade não acolha essa influência no seu modo de operar é reafirmar o sequestro de identidade. Isso comprova o quanto o projeto racista é o crime perfeito, pois ele faz com que a própria vítima se coloque no lugar de criminosa.

Seja para as pessoas pretas deste País, seja para a construção da sociedade brasileira, as religiões de matriz africana contribuem diretamente para a nossa jornada mítico-ancestral. E ainda sobre o professor Sidnei, ele menciona a epistemologia de Exu como possibilidade de cura e desconstrução da intolerância. “É na encruzilhada que podemos encontrar nossas origens ancestrais, autocompreensão, restauração, morte, (re)nascimento, e continuidades. [...] Na sociedade do esquecimento, do apagamento do esvaziamento semântico das origens, é praticamente impensável a existência de uma epistemologia que valorize tudo que a necropolítica quer negar e, em seguida, matar.” Sim, professor, que a nossa sociedade viva a liberdade de expressão religiosa e não tenha mais medo da encruzilhada.

@mequetrefismos Luiza Brasil é jornalista, fashionista, crespa assumida e ativista racial. Aqui, na coluna Caixa Preta, compartilhará insights sobre moda, comportamento y otras cositas más... (Foto: Arquivo Pessoal) — Foto: Glamour
@mequetrefismos Luiza Brasil é jornalista, fashionista, crespa assumida e ativista racial. Aqui, na coluna Caixa Preta, compartilhará insights sobre moda, comportamento y otras cositas más... (Foto: Arquivo Pessoal) — Foto: Glamour
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