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Obirin
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Por Obirin Odara (@naomecolonize)

Assistente social, mestre em políticas sociais pela UnB e comanda a coluna "Tá armada a kizumba", que aborda consequências do processo de colonização.

Pois bem. Há um tempo venho refletindo como o trabalho nos adoece. Para além do burnout, assédios, jornadas extensas, cobranças exaustivas, leis trabalhistas flexibilizadas e/ou desrespeitadas, o trabalho se apresenta como o espaço a partir do qual a nossa identidade se afirma socialmente como útil e propositiva para o avanço coletivo da nossa sociedade. Nossa importância e prestígio social se medem pelo cargo, empresa e salário, mais do que gostaríamos. Contudo, na prática, vivemos um trabalho alienado, corrompido pelo capitalismo, como algo que perde sua essência ontológica (aquilo que é próprio do ser social) e se afirma como produção de lucro para o patrão. Sem o corpo, o nosso corpo, esse trabalho não se materializa. Logo, é esse corpo que passa, no mínimo, 1/3 do dia em uma função laboral - manual e/ou intelectual, que sente as pressões de um propósito que, em muitos casos (talvez na maioria deles) deixou de ser algo que possui um propósito, que gera prazer e se tornou mera necessidade de subsistência.

Se pensarmos nesse trabalho adoecedor, que nos afasta de nossos desejos e se torna obrigação, com o pano de fundo da escravidão, veremos que a existência de pessoas negras foi condicionada ao trabalho como única possibilidade de existir. Ao sermos limitados e amarrados a condição de escravizados, nossa identidade de humano foi roubada para colocar a identidade de escravo como a marca que define nosso lugar no mundo. Para o europeu, colonizador e senhor de engenho, o negro não era nada além disso: um escravo.

Quando a escravidão é proibida e nos tornamos “livres”, (pode inserir infinitas aspas aí!), o senhor de engenho que passou a se constituir como classe dominante no capitalismo não mudou sua percepção sobre o negro. Se não mais escravo, o que são agora essas peças da África? Ainda que livres, não são humanos pois para os brancos, humanos são os seus iguais.

Assim, nos deixaram de fora dos novos formatos de trabalho, agora assalariados. Porém, independente do não lugar nesse novo mundo que estava se construindo no Brasil, o discurso de que o trabalho servil, forçado, pauperizado, prenhe de violências, se manteve como o nosso lugar. Da escravidão para os trabalhos informais, para o desemprego, para a miséria... Sem acesso a terras, sob as ameaças de aprisionamento simplesmente por estar na rua e ser lido como “vadio”, nós, pessoas negras, fomos ensinadas que para existir aqui, devemos nos submeter ao lugar que o branco criou para nós. E esse lugar não é ao seu lado, dividindo a mesa.

A escravidão, enquanto modalidade de trabalho associada a dominação racial em outros aspectos políticos, filosóficos, religiosos, dentre outros, foi imputada para pessoas negras e indígenas como algo que retiraria de nós a nossa condição primitiva e animalesca. A única forma de nos mantermos no mesmo território que eles, apesar de terem nos enfiado aqui à força, era trabalhar exaustivamente e até a morte. Vale dizer que sempre fomos desobedientes, a prova disso é o quilombo de palmares e as inúmeras revoltas e enfrentamentos que o povo negro promoveu durante a escravidão e desde então até os dias de hoje!

A religião hegemônica trazida pelos brancos sempre contribuiu para atribuir o esforço e sofrimento de agora como o pagamento de uma dívida adquirida assim que entramos em contato com os brancos europeus. É como se o fato de sermos negros, logo inferiores aos olhos deles, é o pecado original do qual precisamos nos redimir. O perdão, neste caso, vem dos brancos. E o esforço necessário é a submissão.

Esse discurso falseado de que o trabalho, ainda que enquanto escravizados, nos devolveria a humanidade, fincou em nossas mentes colonizadas que precisamos, ainda hoje, ser validados pelo branco a partir do trabalho. Contudo, entramos na escravidão, “saímos” dela, e seguimos desumanizados. Ou seja, a promessa do trabalho como algo que dignifica é uma promessa colonial e, certamente, uma farsa.

Continuamos acreditando e nos movendo em torno dessa promessa.

Quantos de nós, pessoas negras e indígenas, não acumulamos crises e mais crises somadas a uma estafa mental absurda porque nos dedicamos em ser os melhores profissionais para termos reconhecimento – e essa satisfação não chega?

Independente do cargo, do salário, da contribuição social que fazemos... continuamos distante da sensação de preenchimento e dignidade que o trabalho poderia nos trazer.

Ou quantos homens negros não se apoiam na frase “sou um trabalhador” quando abordado pela polícia? Como se essa frase fosse nos proteger, mas não. A identidade do trabalho não é suficiente para nos redimir de nosso pecado de sermos negros.

No fundo, acreditamos ainda que se seguirmos os protocolos da modernidade, estaremos a salvo.

Disseram: trabalhem, se submetam. Trabalhamos, nos submetemos! E o genocídio segue seu curso.

Abrimos mão de várias outras dimensões da vida, na expectativa de que a energia que colocamos no trabalho, retorne como humanidade.

Na primeira semana de fevereiro de 2022, Durval Teófilo Filho de 38 anos, um homem negro, foi morto a tiros pelo seu vizinho branco, porque, de acordo com ele, o confundiu com um bandido. Já sabemos a razão que motivou esses tiros e porque este homem negro foi “confundido” com um bandido. Mas, o que quero destacar, foi a frase que a esposa de Durval disse quando entrevistada: “ele era preto, mas era trabalhador”. Ela, assim como nós, fomos condicionados a acreditar que o trabalho nos salvaria do genocídio.

Nem só o trabalho, nem só o dinheiro, nem só a estética, nem só o título acadêmico... Nada disso irá nos humanizar.

A humanização da nossa existência não está nas mãos dos brancos… Nossa humanidade está na reconstrução dos valores africanos e pindorâmicos para atracar uma nova existência onde o trabalho, a estética, a família, o estudo, o corpo, o que quer que seja, não seja mais definido por eles; sim por nós!

E, para muitos de nós, a excelência é algo que parte do comprometimento com tudo que fazemos. Mas, a grande armadilha que caímos é usar toda essa energia construtiva e divina para buscar reparação simbólica e material através do trabalho para eles, os patrões brancos. Eles, que nunca devolverão o preenchimento da falta que nos assola.

Nosso banzo – saudade histórica – só se resolve com um quilombo inteiro. E, se tratando de um número específico de pessoas negras que tem escolhas para além da sobrevivência, pergunto para nós: com a quantidade de demandas que temos e como seguimos com dificuldade de impor limites e sermos mais estratégicos com eles, tem restado energia para reconstrução do nosso povo? Para a família? Para as crianças ao seu redor? Para os sonhos e sambas? Ou você está fixo no desejo de ser o melhor para quem não está interessado nem disposto a reconhecer a nossa potência?

O trabalho não nos define e ele não irá nos dignificar, porque o saque colonial se fez antes e mais profundamente.

A reconstrução precisa ser completa, coletiva e negra!

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