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Gastronomia
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Antes dos prêmios, antes das filas na porta da loja em Pinheiros e antes de se tornar referência em yogashi no Brasil, Vivianne Wakuda cresceu entre plantações em Ibiúna, no interior de São Paulo. Filha de feirantes, passou a infância ajudando na lavoura e nas feiras livres, em uma rotina que misturava trabalho, disciplina e comida fresca à mesa.

"Minha relação com a gastronomia surgiu desde o momento em que aprendi a cultivar verduras e legumes com meus pais, ditchans e batchans", conta em entrevista à Glamour. Na casa da família, havia conservas, cozidos e pratos da cozinha japonesa caseira preparados pela avó. "Era tudo muito sofrido, mas eu tinha o privilégio de ter tudo fresco."

Na escola, o desempenho não era prioridade. Depois das aulas, o trabalho na roça era parte do cotidiano. Foi ali que começou a enxergar na cozinha uma possibilidade concreta de futuro.

Vivi Wakuda — Foto: Divulgação
Vivi Wakuda — Foto: Divulgação

"A única saída que eu via como profissão naquela época era ser cozinheira."

A precisão que mudou tudo

O ponto de virada veio no Senac Campos do Jordão, quando teve o primeiro contato com a confeitaria francesa. "Eu me encantei com a precisão exigida e o respeito pelas etapas para que o resultado fosse perfeito." A disciplina técnica encontrou nela terreno fértil.

Determinada a ir além, conquistou uma bolsa de estudos financiada pelo governo japonês e, aos 20 anos, embarcou em seu primeiro voo rumo a Fukui. Lá, trabalhou na Osomen-ya, confeitaria com mais de 300 anos de história, especializada em wagashi e yogashi, estilo que combina técnicas ocidentais com ingredientes japoneses como matchá, shissô e azuki.

Foi nesse período que sua identidade profissional se consolidou. "Queria me tornar mais independente dos meus pais. Eu sabia o esforço descomunal que faziam para eu estudar." No Japão, além da técnica, aprendeu rigor, silêncio e consistência.

A construção de liderança

De volta ao Brasil, passou por cozinhas exigentes, onde desenvolveu sobremesas autorais que dialogavam com o universo japonês. Mas o caminho não foi isento de violência. "Entre humilhações, misoginia e até xenofobia, eu aprendi que precisava liderar de forma completamente diferente." Hoje, à frente da própria equipe, ela faz questão de praticar uma gestão ética e coerente. "Sou outra Vivi se comparada a 15 anos atrás."

Vivi Wakuda — Foto: Divulgação
Vivi Wakuda — Foto: Divulgação

Para ela, ser mulher no comando ainda exige enfrentamento constante. "Eu tenho plena consciência da minha competência e não aceito ser diminuída." Comentários misóginos e racistas ainda acontecem, mas a resposta é firme. "Antes pediam para deixar para lá. Hoje eu bato de frente."

Da casinha azul à nova casa em Pinheiros

Em 2020, em plena pandemia, abriu a primeira loja em Moema. O espaço, pensado inicialmente para retirada e delivery, ganhou cinco mesinhas improvisadas conforme o público crescia. O reconhecimento veio rápido: eleita Melhor Confeiteira e Melhor Confeitaria pela Veja São Paulo em 2022 e 2023, além de Melhor Chef Confeiteira pela Prazeres da Mesa.

Com a demanda crescente, mudou-se em 2024 para uma casa maior em Pinheiros, com área interna climatizada, espaço externo com cobertura retrátil e ambiente pet friendly. O endereço marca uma nova fase, mais estruturada, mas com a mesma essência. "Ter um ambiente desse porte, para quem vendia bolos na barraca dos meus pais, é muito satisfatório. É uma forma de agradecer aos clientes que nos acompanham há tantos anos."

Vivi Wakuda — Foto: Divulgação
Vivi Wakuda — Foto: Divulgação

Técnica, afeto e continuidade

A morte da mãe, em 2017, foi um dos momentos mais difíceis da trajetória. "Inaugurei minha primeira loja em 2020, crescemos em 2024, e ainda me dói ela não ter presenciado tudo isso." A ausência virou combustível.

Hoje, a confeitaria Vivi Wakuda é reconhecida pela leveza, precisão e estética minimalista, características do yogashi, mas também por algo menos tangível: a sensação de acolhimento. "A identidade da confeitaria reflete muito da minha infância: uma casa aconchegante, atendimento atencioso e cordial."

Vivi Wakuda — Foto: Divulgação
Vivi Wakuda — Foto: Divulgação

Entre tradição japonesa, técnica francesa e memória brasileira, Vivi construiu mais do que uma marca: construiu um lugar de permanência. E segue fazendo da confeitaria um território de excelência e resistência.

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