Da memória ao museu: Manuelle Ferraz transformou a cozinha brasileira em movimento
À frente de A Baianeira MASP e do Boteco de Manu, a chef mineira faz da gastronomia um território de identidade, arte e resistência cultural
Manuelle Ferraz nasceu em uma casa comandada por mulheres. A cozinha não era apenas o lugar do preparo, era o centro da vida. Ali se organizavam afetos, decisões, rituais e permanências. "Sou a quarta geração de mulheres cozinheiras. Sou resultado desse legado que se confunde com a minha própria existência", diz.
Natural do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, cresceu cercada por sabores, técnicas e gestos que atravessam gerações. Diferentemente das mulheres que vieram antes dela, que permaneceram em Almenara, Manu decidiu ir para o mundo. "Queria transformar essas memórias em ações que expressassem valores sociais, históricos e coletivos, mas também íntimos." Hoje, se reconhece como uma das guardiãs da cultura alimentar brasileira.
Quando a cozinha virou caminho
Antes da gastronomia se tornar profissão, houve um desvio. Manu formou-se em Direito – era o caminho esperado. Mas a cozinha insistia. "A gastronomia virou paixão quando eu a entendi como caminho", conta. Foi ao abandonar a carreira jurídica que mergulhou em uma busca interna que a levou de volta às próprias origens.
"No final, cheguei à conclusão de que só se consegue ser o que realmente se é."
A decisão não era apenas profissional, era identitária. Cozinhar passou a ser forma de expressão, pesquisa e posicionamento.
A Baianeira: brasilidade como linguagem
Em 2014, inaugurou A Baianeira na Barra Funda. O restaurante rapidamente se consolidou como um dos endereços mais consistentes da cozinha brasileira contemporânea em São Paulo. Não pela reinvenção vazia, mas pela valorização daquilo que sempre esteve ali.
"Cozinha brasileira. De suas trivialidades às suas sofisticações", resume. "Meus pratos contam nossa história, nossos costumes, nossos festejos, nosso comensal, nossa personalidade e resistência."
Para ela, tradição e sofisticação não são opostos. São camadas da mesma narrativa. "Somos uma cozinha de substituição em eterna beleza da constituição", afirma, defendendo a criatividade que nasce da escassez e da adaptação – marcas históricas da formação alimentar brasileira.
Em 2019, recebeu o convite para levar A Baianeira para dentro do MASP. A entrada no maior museu da América Latina não foi apenas mudança de endereço, mas ampliação de diálogo. Gastronomia, arte, arquitetura e cultura passaram a ocupar o mesmo espaço físico e simbólico. Hoje, a Baianeira MASP carrega o selo Bib Gourmand do Guia Michelin, reconhecimento de consistência e excelência.
Após 11 anos, a unidade original da Barra Funda encerrou as atividades no início de 2026, como um fechamento consciente de ciclo. "A Baianeira é movimento, é presença, é onde eu estou." A cozinha, para ela, não é estática: acompanha seus deslocamentos.
Empreender como construção coletiva
Além do MASP, Manu comanda o Boteco de Manu, também na Barra Funda, dedicado à cozinha popular brasileira em ambiente democrático e vibrante. Atua ainda como presença constante na televisão e em eventos internacionais, levando a gastronomia brasileira para cidades como Paris e Miami.
Ser mulher à frente de restaurantes no Brasil, para ela, não é tema isolado, mas parte de uma estrutura maior. "A participação ativa das mulheres em qualquer economia é um pilar fundamental para seu desenvolvimento", diz. Prefere deslocar o foco das barreiras para as estratégias. "Prefiro falar de como podemos nos organizar melhor, criar pontes, facilitar o acesso a conteúdos e oportunidades."
Em vez de enfatizar o embate com uma estrutura predominantemente masculina, Manu escolhe falar de articulação, redes e construção coletiva. Para ela, o avanço passa por organização e compartilhamento de experiências.









