Solidão: como lidar com a dor e a delícia desse sentimento?
Ora iluminada, ora sofrida. Mais do que uma perspectiva negativa construída pela sociedade, a solidão carrega um processo difícil, mas poderoso de autoconhecimento e que facilita nosso encontro no mundo – no nosso e no do outro
Por Malu Pinheiro (@mariluisapp)
Uma experiência interna, subjetiva e que atravessa as pessoas de formas diferentes, mas que, geralmente, traz consigo uma conotação negativa. Assim é a solidão. De certo, após a pandemia do coronavírus, os estudos sobre ela se intensificaram. Em 2021, a Organização Mundial da Saúde classificou o isolamento social e a solidão como problemas globais de saúde pública. Na época, a OMS divulgou uma pesquisa em que afirmou que cerca de 20% a 34% dos idosos na China, na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos se sentiam solitários. Os impactos disso na saúde também já são conhecidos. Pesquisadores da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, por exemplo, mostraram que o efeito fisiológico da solidão é parecido com o do estresse: a alta do cortisol, o que eleva o risco de doenças cardiovasculares e diminui a imunidade.
Assim, não há como se pensar na solidão como algo positivo, correto? Não, porque (novamente) ela é uma experiência interna, subjetiva e que atravessa as pessoas de formas diferentes – e que, precisa ser entendida, vigiada (é claro), mas, sobretudo, naturalizada. Para Cíntia Aleixo, psicóloga e apresentadora da série de docu-reality Alta Estima, do canal E! Entertainment Television, a sociedade percebe a solidão em um contexto negativo que nem sempre é uma verdade absoluta. "Ela faz parte da condição humana da mesma forma que existe a vida e a morte, porque somos indivíduos sozinhos. Ainda que eu viva em comunidade, eu penso sozinha. Isso traz independência para que você seja quem você é. Muitos encontram na solidão um lugar de certeza no mundo", diz.
Aspectos da solidão
Para Ana Suy, psicanalista, professora universitária e autora do livro A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão (Editora Planeta), a solidão pode ter diferentes facetas. "A primeira delas é a do desamparo, que é a nossa condição de chegada na vida. Nascemos e precisamos, radicalmente, do outro", ressalta. À medida que amadurecemos, conquistamos certa independência, mas ela seguirá sempre limitada. Outra abordagem para pensarmos a solidão é a do isolamento, que pode ser visto como um mecanismo de defesa. "Essa é uma forma de evitar o risco do desencontro, do abandono, do mal-estar e do esforço que a relação com o outro demanda", reflete Ana. Essa, sim, pode ser perigosa.
"Uma abordagem que a psicanálise me ensina e que considero relevante é a solidão como algo impossível de ser apagado pelo amor", conta, fazendo referência ao título de seu livro, que muitos acham curioso e até pessimista. "Trata-se de destacar como, mesmo em encontros positivos, há sempre um ponto de solidão, que é intrínseco ao impossível e que nunca podemos tocar. No sentido de que somos um mistério: um mistério para o outro, mas, sobretudo, para nós mesmos. Não possuímos clareza completa sobre quem somos e o que desejamos, e também não conseguimos dar conta de nos fazer companhia o tempo todo", completa.
O conceito de solidão, assim, não é uma patologia, mas uma experiência que pode ser vivida sob diferentes aspectos – alguns com mais leveza, outros com mais angústia. "Quando a gente normaliza e humaniza a palavra solidão, trazendo-a para a condição de sobrevivência, fica mais fácil aceitar os momentos de solidão física. É ter espaço para ser você mesma", elucida Cíntia.
Solidão e saúde mental
A sociedade construiu a noção de que a solidão e o sentimento de solidão são a mesma ideia, quando, na verdade, ela é uma ilusão – afinal, nunca ficamos sozinhos, estamos sempre conosco. E poder ficar sozinho está atrelado a uma boa saúde mental.
"A experiência da solidão está profundamente ligada ao nosso mundo interior; quando alguém não consegue ficar sozinho, algo ali não está bem. E estamos tão ocupados com tantas atividades e demandas que, muitas vezes, não percebemos que perdemos o contato com o âmbito interno", afirma Ana. O autoconhecimento, então, seria a chave para um bom relacionamento consigo mesmo e, consequentemente, com a solidão. "Quando não conseguimos suportar a nossa própria companhia, buscamos em excesso a presença do outro, sem perceber que somos nós mesmos que nos incomodamos", pontua. Para ela, quanto menos conhecemos a nós mesmos e a nossos padrões de funcionamento, mais transferimos isso como uma demanda ao outro.
E, no pensamento inverso, quanto maior o autoconhecimento, mais viáveis se tornam os relacionamentos. "Isso porque saímos da posição de sermos exigentes. Assim, paradoxalmente, podemos estar mais solitários e, ao mesmo tempo, mais próximos do outro", diz Ana. A partir de uma construção social, a solidão é colocada em um polo extremo: ou estamos sozinhos, ou não. "Penso que apenas quando somos capazes de tolerar nossa própria solidão é que podemos estar com o outro ao mesmo tempo", contesta.
Mas, para além do autoconhecimento (ou não), a solidão também é uma condição existente na vida de uma pessoa não por escolha própria, mas por fatores externos que a atravessam, como a raça e o que conhecemos como "a solidão da mulher negra". "Todos os seres humanos nascem e querem ser pertencentes ao mundo. No entanto, a mulher negra, desde cedo, não se vê nesse mundo que é ditado para ela – na sala de aula, nos bailes, nas relações afetivas. Essa pessoa se sente muito mais só do que naturalmente uma pessoa branca se sentiria", reforça Cíntia. Daí a importância da responsabilidade coletiva em transformar esse mundo. "Não dá para pensar em solidão a partir das nossas próprias avaliações. Eu, enquanto parte do coletivo, preciso pensar na solidão em todas as áreas e em todas as camadas sociais para tentar evitar que aquela outra pessoa não se sinta sozinha", diz. Medidas e ações antirracistas, por exemplo, atuam neste movimento.
Solidão ou solitude?
Há também a solidão vista com bons olhos e que, por isso, recebeu o nome de solitude. Diz-se muito sobre um bem-estar em ficar sozinho. Mas, para Ana, não precisaríamos de uma palavra nova. "Gosto do fato de que a solidão engloba significados diferentes. Não precisamos categorizar como algo bom ou ruim, iluminado ou sofrido", pontua.
Foi a modernidade que trouxe esse conceito que está, é claro, relacionado diretamente também com o autoconhecimento. Enquanto a solidão tem uma perspectiva negativa de sobrevivência, a solitude seria um caminho florido para esse mesmo instinto. "A solidão física para quem vive a solitude não quer dizer nada. Eu mesma, anos atrás, não iria tomar um café da manhã sozinha em um restaurante. Porém, o meu processo me faz hoje curtir a minha própria companhia. Para mim, tem muito a ver com a segurança de ser. Se eu não tenho segurança para tomar uma decisão ou me sentir completa enquanto estou só, eu não consigo dar grandes passos em nenhum aspecto da vida", acrescenta Cíntia.
Bandeiras vermelhas
É claro que não devemos romantizar a solidão por completo, e existem, sim, formas perigosas dela, como, por exemplo, a reclusão. "Quando nos afastamos do contato com os outros, fragilizamos nossa habilidade social, e isso cria um ciclo vicioso. Temos muitos elementos ao nosso redor que reforçam essa posição de isolamento: aplicativos de comida, de transporte...", explica Ana. A modernidade nos faz acreditar na falácia de que é possível viver sozinho, mas essa crença está fadada ao fracasso.
Para Cíntia, o sinal de alerta deve ser ligado quando a solidão passa a ser atravessada pelo comportamento interpessoal. "É quando a pessoa, de fato, se isola, e talvez esse isolamento social faça com que ela não saiba mais como viver no mundo e, assim, não consiga mais viver de fato", diz. É também aí que entra a diferenciação de estar sozinho e de se sentir sozinho. "Muitas vezes, a pessoa que já está lidando com alguma questão de saúde mental pode estar cercada de pessoas e, ainda assim, se sentir sozinha. Essa solidão em específico é a pontinha do iceberg que pode desencadear uma série de transtornos mentais e emocionais, como a depressão e o suicídio." Nosso exercício coletivo de humanidade é se preocupar com o outro, praticar a observação e ter atitudes a respeito. "Percebeu que um amigo está se fechando em si mesmo? Mande uma mensagem, faça uma visita, traga-o de volta e se esforce para se manter presente. Praticar a empatia é essencial nos dias de hoje", reforça Cíntia.
Isso tudo porque nos relacionamos através da presença e da ausência. "Gostamos de ser lembrados; caso contrário, surge a interpretação de que estamos sendo rejeitados. Então, não se trata de estar constantemente com o outro, mas de ocupar um espaço na vida do outro. Não identificar esse lugar é também perder nosso próprio lugar no mundo, pois somos seres formados por relações, constituídos por outros", finaliza Ana.









