Aos 24 anos, ela criou uma 'granada pacífica' para salvar mulheres em risco
Depois de ser perseguida por um homem, Julieta Rueff decidiu lançar um dispositivo de defesa pessoal. O acessório emite um alarme sonoro, enviando a localização exata da pessoa para a sua rede de contato
Aos 20 anos, a portuguesa Julieta Rueff viveu uma experiência assustadora: passou a ser perseguida por um homem nas ruas de Barcelona. Não o conhecia, nunca tinham se relacionado, mas ele tornou-se seu stalker. Descobriu, mais tarde, que outras oito mulheres já o haviam denunciado. Julieta fez o mesmo e procurou a polícia. A experiência foi o ponto de partida para uma ideia que não saiu mais da cabeça: criar algo que ajudasse outras mulheres em situação de risco.
Dois anos depois, ela transformou a experiência traumática em ação: lançou um dispositivo de defesa pessoal passiva. O acessório, batizado de FlamAid (Flame vem da ideia de chama e 'Aid' significa ajuda), tem formato de granada e, em caso de emergência, emite um alarme sonoro, enviando a localização exata da utilizadora para a sua rede de contato e autoridades.
Mas tirar o projeto do papel não foi tarefa simples. Julieta levou quase um ano até conseguir os primeiros investidores. “É muito mais difícil captar recursos sendo mulher. Nem precisa ser um projeto voltado para o público feminino, só o fato de você ser mulher já complica”, conta ela, hoje com 24 anos. Segundo a jovem, apenas 6% do capital privado na Europa vai para iniciativas lideradas por mulheres. Depois de muitas tentativas, ela finalmente conseguiu um investimento de €500 mil (pouco mais de R$3 milhões). O dispositivo foi lançado oficialmente no final de 2024, durante a Web Summit de Lisboa.
A “granada pacífica” já está à venda em alguns países da Europa e América e acaba de desembarcar no Brasil. Por aqui, o dispositivo pode ser adquirido pelo site oficial. Animada com a expansão, Julieta revela que está em negociações para firmar uma parceria com as autoridades brasileiras, nos mesmos moldes do que já acontece na Espanha. “Estamos em conversa para tentar acesso direto às forças de segurança no Brasil”, explica.
Segundo ela, o dispositivo já conquistou mais de 3 mil clientes e gerou um faturamento superior a €100 mil (cerca de R$652 mil). Recentemente, Julieta também entrou para a lista 'Forbes 30 Under 30' Europe 2025 na categoria de 'Impacto Social'. "Nossa granada é uma forma de lutar da maneira mais pacífica possível contra a violência. Nosso objetivo é alertar, não é calar", afirma.
Julieta se emociona ao falar sobre os depoimentos de mulheres que chegam até ela. "Recebemos a mensagem de uma cliente que passou por uma situação de violência doméstica com um ex-namorado agressivo. Ela adquiriu um dos nossos dispositivos e agora nos escreveu dizendo: 'Estou em frente ao tribunal, prestes a entrar. Quero agradecer por me darem as asas que alguém me tirou. Pela primeira vez, não sinto medo; sinto-me livre e segura para enfrentar tudo isso.' Eu e toda a equipe choramos ao saber que o nosso projeto deu a ela a força necessária para denunciar seu agressor."
Como funciona a "granada pacífica"?
A ativação é simples: basta puxar o anel localizado na parte superior do dispositivo. Imediatamente, um alarme de 110 decibéis é disparado e permanece ativo por até 15 minutos.
O aplicativo da FlamAid, que deve ser instalado previamente no celular, envia a localização GPS para três contatos de emergência escolhidos pela usuária. Na versão premium, o alerta é direcionado diretamente às autoridades.
Acessório fashion
Julieta também se preocupou com o design do dispositivo: queria algo leve, prático e que pudesse ser usado como acessório no chaveiro ou na bolsa. “Hoje temos até cases coloridos, dá para combinar com a bolsa ou o look do dia”, comenta.
O próximo passo é lançar joias inteligentes. "Essas joias são complementares à granada, ou seja, não emitem som, apenas enviam o sinal de GPS. São peças discretas, pensadas para situações em que a mulher precisa de ajuda sem chamar atenção. Por exemplo, se estiver num táxi ou enfrentando um caso de violência doméstica, ela pode acionar o dispositivo e compartilhar sua localização com os contatos de emergência ou diretamente com os serviços de segurança."









