Como sair da rotina de trabalho que nunca termina?
Emails às 22h, reuniões fora do horário e zero tempo de foco: estamos presos na jornada de trabalho infinita?
Deixe-me adivinhar: você trabalha o dia inteiro, trabalha a noite toda, só para pagar as contas que precisa pagar? Temos um consenso: estamos todos trabalhando demais, certo? Trabalhamos o dia todo e, de alguma forma, também até tarde da noite? Talvez, no momento em que você abre os olhos, instintivamente já pegue o celular para checar seus e-mails de trabalho. E talvez, no seu “intervalo para o almoço”, acabe finalizando algumas tarefas de última hora. E, possivelmente, no caminho de volta para casa, use o “tempo livre” para se adiantar no que vem no dia seguinte. Você talvez até ouça o seu laptop te chamando depois do jantar.
Se tudo isso soa familiar, é bem possível que você tenha caído na armadilha da chamada “jornada de trabalho infinita” — que é exatamente o que parece ser. Um dia de trabalho que parece não ter fim, seja no fim do expediente ou até mesmo nas férias.
O Work Trend Index, relatório de tendências do trabalho da Microsoft, trouxe dados que confirmam essa realidade. As reuniões fora do horário tradicional (das 9h às 17h) aumentaram 153%, com um crescimento de 46% nas reuniões após as 18h. Além disso, o funcionário médio envia ou recebe mais de 50 mensagens fora do horário comercial. O estudo identificou até um novo “terceiro pico” de produtividade: às 22h.
Trata-se de um cenário “caracterizado por um ritmo frenético e um chamado constante para continuar trabalhando”, explica Bree Groff, autora do livro Today Was Fun: A Book About Work (Seriously). Ela aponta que esse padrão tende a seguir uma rotina similar: “A clássica jornada infinita começa às 6h da manhã, com o funcionário rolando na cama para checar o e-mail segundos depois de abrir os olhos, antes mesmo de olhar para o parceiro ao lado”, diz.
Ao longo desse dia interminável, tudo provavelmente parece caótico. Você pode se sentir puxado para todos os lados ou multitarefando até a confusão total. “O expediente é marcado por uma avalanche de interrupções e quase nenhum tempo de foco”, diz Groff. E esse estilo de trabalho está se tornando cada vez mais comum — segundo a Microsoft, os trabalhadores são interrompidos, em média, a cada 2 minutos por uma reunião, e-mail ou mensagem. “E o trabalho só continua à noite com os e-mails noturnos”, ela diz. Cerca de 29% dos funcionários ativos afirmam que voltam para suas caixas de entrada por volta das 22h. “E, claro, tem o trabalho de fim de semana também — nenhum dia é poupado da labuta.”
Você deve estar pensando: espera aí, a gente não aposentou esses termos tóxicos como “hustle” e “grind” junto com a queda da geração girlboss? A gente não entrou em uma nova era de hábitos mais saudáveis no trabalho, graças à Geração Z? Afinal, os mais jovens estariam inaugurando um novo modelo de trabalho, com limites claros, boa comunicação e foco em saúde mental. Foram eles que trouxeram tendências como o quiet quitting (cumprir só o básico no trabalho) e o resenteeism (aumento da insatisfação de quem permanece em empregos que não gosta). Alguns até tentaram adotar “microaposentadorias”, tirando longas férias a cada poucos anos.
Embora a Geração Z esteja claramente rejeitando a cultura do “hustle” e todos os padrões tóxicos que vêm com ela, o crescimento da jornada de trabalho infinita sugere que sua influência ainda é difícil de erradicar.
“A jornada infinita é a prima menos glamourosa da cultura do hustle”, diz Groff. Na verdade, ela sugere que essa nova era é ainda mais insidiosa. “Por mais prejudicial que fosse a cultura do hustle, ao menos havia um senso de agência — a sensação de que, mesmo trabalhando sem parar, você estava lutando por algo. A jornada infinita, na maioria das vezes, não é uma escolha — é simplesmente o estado natural em muitas organizações. Gera a sensação de que você precisa correr só para continuar no mesmo lugar.”
Ela continua: “Em outras palavras, a cultura do hustle era como tentar bater o recorde em um videogame: empolgante e viciante, mesmo que custosa. A jornada infinita é como jogar Whack-A-Mole: reativa e ansiosa. É como estar em modo de detecção constante de ameaças — incessante.”
Ok, mas... por que isso está acontecendo? Se a Geração Z é tão contra a cultura do hustle, como tantos jovens acabaram presos nesse ciclo?
Segundo Groff, tudo se resume à cultura da empresa. “Infelizmente, é a cultura padrão em muitos locais de trabalho”, diz. “Não culpo ninguém por estar preso na matrix da jornada infinita. É difícil combater isso sendo apenas uma pessoa em um sistema que opera com esse frenesi. Quando você tem 117 e-mails na caixa de entrada todo dia (média apontada pela Microsoft), o que mais pode fazer além de tentar responder todos?”
E uma vez que esse padrão se instala, é muito, muito difícil sair dele sozinho. “É difícil para uma única pessoa dizer que vai focar por duas horas todas as tardes ou que vai encerrar o expediente às 17h quando o resto da equipe ainda está trabalhando até tarde”, explica Groff. “Imagina os olhares tortos.” Segundo ela, os perigos da jornada infinita são óbvios: “Os danos são palpáveis”, afirma, citando:
- Ansiedade constante (ainda que em baixo grau) de que um pedido, mensagem ou reunião possa exigir sua atenção a qualquer momento
- A impossibilidade de focar em amigos, família ou até em um livro por lazer, quando a voz na sua cabeça (ou as mensagens na tela) grita que você ainda não terminou o trabalho
- Cuidar da saúde (fazer exercício, comer bem, ir ao médico) parece um obstáculo para produzir mais
Até aqui, tudo parece um beco sem saída. Mas é possível criar uma rotina mais saudável?
“Resolver o problema da jornada infinita é complexo, porque foi criado por um sistema complexo — mas é 100% solucionável”, diz Groff. “É solucionável porque é um sistema humano, e nós, como humanos, podemos tomar decisões diferentes.”
Infelizmente, tudo começa pela liderança. “Por exemplo, é o líder quem precisa declarar um bloco de duas horas de foco para que a equipe trabalhe no que realmente importa”, ela diz. “É o líder quem deve resistir ao impulso de mandar uma mensagem às 21h que acaba disparando uma reação em cadeia no time todo.”
É aqui que a IA pode ser uma aliada, segundo ela. “A chave é usar a IA para realizar tarefas de forma que os humanos terminem o expediente às 17h — e não para que possam pegar mais trabalho depois.”
E o que você, como funcionário, pode fazer nesse meio tempo? Groff sugere:
1. Reconheça que o trabalho é um poço sem fundo. Sempre haverá “mais uma coisa” a ser feita. Quanto antes você parar de tentar chegar ao fundo desse poço, melhor. E, convenhamos, quem quer estar no fundo de um poço?
2. Ocupem sua agenda antes que o trabalho ocupe. Muitas vezes deixamos o trabalho dominar nossas vidas, e o que sobra vai para a família, amigos, descanso e hobbies. Em vez disso, crie o hábito de agendar a vida primeiro: marque consultas médicas, exercícios e até encontros românticos com antecedência no calendário. O motivo nem precisa ser visível para a empresa. Se quiser, bloqueie todas as noites como “horário pessoal”. Pode parecer absurdo, mas às vezes é necessário. Nossos calendários viraram nossos chefes — então, certifique-se de que seu chefe tem as prioridades certas.
3. Experimente parar de trabalhar antes de se sentir confortável. Deixar uma grande apresentação pela metade pode não ser ideal, mas tente deixar alguns e-mails ou mensagens sem resposta — ao menos por uma noite. A gente costuma se orgulhar de ser responsivo (e, sejamos honestos, é bom se sentir necessário), então parece que qualquer mensagem não respondida é uma bomba-relógio. Mas, na maioria das vezes, quem enviou está pensando em outras 85 coisas e feliz por ter passado o e-mail para o seu lado da quadra. Então aproveite a chance de desacelerar esse jogo de pingue-pongue. Curta um jantar tranquilo. O trabalho ainda estará lá de manhã.
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