Muito além do samba: afinal, qual é o papel de uma rainha de bateria?
Entre celebridades e passistas que cresceram nas comunidades e quadras das escolas de samba, o posto de maior visibilidade da Avenida carrega responsabilidade histórica e cultural
A bateria é o coração de uma escola de samba. Logo à frente dela, desfila uma das figuras mais conhecidas do Carnaval brasileiro: a rainha.
Na noite deste sábado (21), veremos algumas das mais importantes delas cruzando a Sapucaí no Desfile das Campeãs do Rio de Janeiro: Viviane Araújo (Salgueiro), Sabrina Sato (Vila Isabel), Juliana Paes (Viradouro), Lorena Raíssa (Beija Flor), Evelyn Bastos (Mangueira) e Iza (Imperatriz Leopoldinense).
Mas, afinal, qual é o papel de uma rainha de bateria?
Viviane Martins, coreógrafa, mestre em Artes e pesquisadora das escolas de samba, explica que uma rainha de bateria tem pelo menos duas funções muito importantes na agremiação: “Durante o desfile, ela apresenta a bateria e cria um diálogo entre os músicos e o público. Mas, fora da Avenida, ela é uma figura ainda mais potente, porque representa a identidade daquela comunidade e é uma referência para as sambistas mais jovens”, explica a pesquisadora.
Embora não configure um quesito que vale nota por si só, as rainhas de bateria influenciam (e muito!) nas notas dos jurados. Como elas seguem à frente da bateria, ditam o ritmo do andamento da escola e podem impactar as notas do quesito evolução se andam devagar ou muito rápido, por exemplo. “Por isso, é tão importante que as rainhas estejam presentes nos ensaios. Elas precisam estar entrosadas com a bateria para que não sejam apenas uma figura bonita ali no meio e prejudiquem a escola”, fala Viviane.
“Na minha visão, quando uma personalidade de fora da escola assume o cargo de rainha bateria, precisa entender que está representando o amor, a identidade, a cultura e a ancestralidade de uma comunidade inteira”, defende a pesquisadora. “É visível quando uma pessoa está ali só pelos holofotes, mas não se envolve com a cultura do samba”.
O surgimento da realeza
Os primeiros desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro aconteceram na década de 1930, mas as rainhas surgiram apenas quarenta anos mais tarde, quando algumas passistas começaram a ganhar destaque e ocupar o espaço à frente da bateria. As primeiras rainhas, portanto, eram mulheres da própria comunidade – a maioria delas negras e filhas ou netas de passistas.
A primeira personalidade de fora da escola a ser rainha de bateria foi a atriz e dançarina Eloína dos Leopardos, uma mulher trans. Em 1976, ela foi convidada pelo carnavalesco Joãosinho Trinta para ocupar o posto na Beija-Flor.
Na década seguinte, celebridades passaram a ser convidadas, justamente quando foi inaugurado o Sambódromo da Marquês de Sapucaí e os desfiles das escolas de samba ganharam status de espetáculo midiático. Estamos falando de nomes gigantes do Carnaval, como Luma de Oliveira, Monique Evans e Luiza Brunet.
À medida que o carnaval cresceu, o posto de rainha se tornou mais cobiçado. Hoje, algumas escolas colocam o posto de rainha de bateria em meio a negociações que envolvem visibilidades, seguidores e patrocinadores. Outras, seguem a tradição e têm rainhas que cresceram na agremiação – é o caso de Lorena Raíssa, na Beija-Flor, Evelyn Bastos, na Mangueira, e Mayara Lima, na Tuiuti.
Isso significa que celebridades não deveriam ser rainhas das escolas de samba? Para a pesquisadora, não. Ela cita Viviane Araújo, Juliana Paes, Paolla Oliveira e Sabrina Sato como exemplos de personalidades que transitam bem entre a televisão e a Avenida. “Elas criaram uma conexão visível com as suas escolas. Frequentam a comunidade, estão presentes nos ensaios e entendem a responsabilidade de estar à frente dos ritmistas”, percebe.









