Xamã: 'Vim de um universo machista e homofóbico, mas a música me transformou'
Em "Cinco Tipos de Medo", seu primeiro filme, o artista interpreta um traficante que pratica diversas formas de violência contra a namorada, personagem de Bella Campos. À Glamour, ele fala sobre como a música mudou sua perspectiva
Há uma década, Xamã era revelado como rapper nas batalhas de rima do Rio de Janeiro; hoje, coleciona feitos como artista que transcendem o mundo da música: quatro papéis na televisão e o prêmio de melhor ator no Festival de Gramado pela atuação em seu primeiro longa, “Cinco Tipos de Medo”, que estreia em 9 de abril.
No filme dirigido por Bruno Bini, ele interpreta Sapinho, um traficante que comete uma série de violências contra a namorada Marlene, interpretada por Bella Campos. Na trama, ele não aceita o término e passa a perseguir a jovem.
Em entrevista à Glamour, Xamã contou que, como o personagem Sapinho, cresceu em um ambiente em que discursos machistas e homofóbicos eram naturalizados, mas passou a refletir sobre a própria masculinidade a partir do contato com a cultura – mais especificamente, com o rap.
“Eu vim de um universo muito machista, com muitas falas homofóbicas. Mas a roda de rima me deu uma outra visão e me politizou de uma maneira... Como se dissesse: ‘Olha quem você é, de onde você veio’”, lembra. “Eu passei a pensar nisso porque o rap me trouxe essas reflexões. O cinema e a música têm esse dom de politizar, de trazer novas perspectivas”.
Depois de se tornar pai – Xamã tem duas filhas: Akasha, de 8 anos, e Hanna, de 4 – essas reflexões se tornaram ainda mais intensas: “Passei a entender melhor a história da minha mãe e da minha avó. Minha família tem muito mais mulheres do que homens presentes. Eu não fui criado pelo meu pai, mas elas estavam lá o tempo todo.”
No ar em "Três Graças", ele interpreta Bagdá, chefe do tráfico da fictícia comunidade da Chacrinha. Já em "Os Donos do Jogo", série da Netflix, vive o bicheiro Búfalo, um contraventor que atua nos bastidores do poder e movimenta grandes esquemas ilegais. Nos últimos dois anos, também já viveu Damião, um matador de aluguel em “Renascer” e “Naldinho”, um jovem que comete furtos em “Justiça 2”, ambas produções da Globo.
O que todos os papéis de Xamã têm em comum? São criminosos. Mais ou menos violentos, com algum toque de humor ou não. Mas todos são bem diferentes entre si – mérito do ator, que consegue imprimir muita humanidade em cada um de seus personagens, para além dos crimes que cometeram.
Nascido e criado no Rio de Janeiro, o artista viu de perto como jovens periféricos são sugados pelo crime: “Tenho muitos amigos que poderiam ter entrado para o crime, mas acabaram indo para a música ou para o esporte. Infelizmente, também tive amigos que fizeram o caminho contrário: sonhavam em ser músicos, mas entraram para o crime”, conta à Glamour. “O crime está ali, na esquina da sua casa. Mas se eles tivessem oportunidade e suporte, não teríamos tantos Sapinhos por aí."









