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Viagem
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Por
Mari Campos

Como toda criança que leu o clássico Volta ao Mundo em 80 Dias, somado a certo fascínio pelas aventuras de Amelia Earhart, cresci sonhando em um dia sair de casa para viver essa mesma experiência.

Foi então que, no começo da idade adulta, li pela primeira vez sobre as passagens RTW (Round The World), que permitem escolher como, quando e onde parar enquanto damos um giro pelo globo. Embora tenha levado muitos anos para tirar o sonho do papel, soube imediatamente que seria assim que eu daria a minha primeira volta ao mundo.

Apesar de velha conhecida dos gringos, a RTW ainda não é figurinha comum entre os viajantes brasileiros. Tem gente que acha que só nômade digital usa, ou que é preciso tirar um ano sabático para isso. Bobagem: diferentes levantamentos da indústria turística mostram que cada vez mais gente está usando essas passagens, até para fazer viagens que cabem nas férias CLT, com 21 ou 28 dias no total.

O melhor: além de ter preços bem interessantes, a RTW também pode ser emitida, em econômica ou executiva, com milhas — e foi bem assim que eu fiz a minha.

A volta ao mundo em 50 dias

A viagem exigiu muito planejamento. Além de pesquisar regras, costumes, dinheiro, vistos e clima, não foi nada simples, com tanto lugar para conhecer, selecionar apenas sete países para o itinerário final. Das inúmeras possibilidades iniciais, várias perguntas foram me ajudando a enxugar a lista: vou me sentir segura ali? A visita envolve muita burocracia? Essa época é boa para esse destino?

Decidi fazer um mix: alguns novos e outros velhos conhecidos, para manter o coração viajante equilibrado entre a adrenalina das novidades e o conforto de voltar a lugares que adoro. Escolhi viajar na baixa estação: menos turistas nos lugares, temperaturas mais amenas, preços mais camaradas, maior disponibilidade nos voos.

Eu amo viajar sozinha (para mim, viagens solo são ferramenta importante de autocuidado e tenho até um livro publicado sobre o tema, o Sozinha Mundo Afora, pela Verus/Record) e não imaginaria fazer minha primeira volta ao mundo de outra maneira.

Com planejamento adequado e as precauções diárias que toda mulher tem que tomar (em qualquer lugar, inclusive na nossa cidade), munida de um cartão de débito de conta global e de um chip internacional, fui sozinha e bem feliz. Mas também encontrei antigos amigos, fiz outros novos, curti minha própria companhia e até abri espaço para o romance. Descobri novos lugares, cheiros, sabores e emoções em sete paradas deliciosas ao longo de 50 dias de viagem. E me senti segura e bem acolhida em todos que visitei.

Chicago foi o começo ideal para a viagem. Dias e noites movimentados, regados a bairros cheios de personalidade,arte, boa mesa, história e arquitetura. E ainda encontrei amigos brasileiros, por puro acaso, bem no lobby do Península Chicago, onde me hospedei.

RTW Kyoto Japão — Foto: Mari Campos
RTW Kyoto Japão — Foto: Mari Campos

De lá fui para o Japão, que foi puro deleite. A diferença de 14 horas de fuso entre Chicago e Tóquio me deixou meio fora do ar nos primeiros dias, mas nada que me impedisse de passear nesse destino tão fascinante. Impossível não amar Tóquio, essa gigante limpa, educada, contraditória e surpreendente, em que cada bairro parece um mundo inteiro. Minha estadia foi pouco para o tanto que eu queria ver, fazer e comer — e já morro de saudades.

Tomei o Shinkansen, o mítico trem-bala japonês, até Kyoto e vi o Monte Fuji ao longe, da janelinha, enquanto comia minha “bento box”, como 99,99% dos outros passageiros. Kyoto é o Japão do imaginário de muita gente: os templos mais lindos (são muitos!), a calmaria à beira-rio, a fala lenta e baixinha dos moradores, ruelas sinuosas, incontáveis bicicletas, os restaurantes mais gostosos.

Como dei a volta ao mundo em 50 dias usando passagem Round The World?  — Foto: Mari Campos
Como dei a volta ao mundo em 50 dias usando passagem Round The World? — Foto: Mari Campos

Da tranquilidade japonesa rumei para a arrebatadora Xangai, a maior surpresa da viagem. Segura (não à toa, foi onde conheci mais mulheres viajando sozinhas), organizada, funcional (todo lugar tem comunicação em inglês também, inclusive no maravilhoso metrô), ela é o casamento perfeito entre o novo e o antigo, o tradicional e o contemporâneo — e ainda tem uma gastronomia fabulosa e gente do mundo inteiro. Acordar e dormir com a alucinante vista do skyline de Pudong foi demais!

Baixei uma VPN (para poder usar WhatsApp e Instagram) e, como ali o uso de cartões é mais complexo (é preciso fazê-lo através de apps locais, como WeChat), ressuscitei a antiga prática de trocar dinheiro — coisa que não fazia há anos! Mas nada de ir ao banco ou casa de câmbio: uma máquina automática no lobby do Conrad Shanghai se encarregava rapidamente da operação.

Depois, foi a vez da tresloucada Bangkok, uma das minhas cidades preferidas. A cosmopolita capital da Tailândia tem templos e palácios incríveis, bucólicos barcos atravessando o Chao Praya dia e noite, além da animadíssima vida noturna e shopping centers a perder de vista. Foram os dias mais chuvosos da viagem, mas também os mais agitados.

Como dei a volta ao mundo em 50 dias usando passagem Round The World? — Foto: Mari Campos
Como dei a volta ao mundo em 50 dias usando passagem Round The World? — Foto: Mari Campos

Fiz passeios lindos, tive jantares incríveis (eita cidade boa para comer!), descobri meu novo bar favorito (o Firefly Bar, dentro do Sindhorn Kempinski — anote a dica). Também foi onde passei meu aniversário, festejado com completos estranhos em uma das comemorações mais divertidas que já tive, com direito a bolo surpresa e tudo!

De lá, segui para Istambul, na Turquia. Outra velha conhecida, paixão antiga — e, ao contrário do que muitos pensam, destino extremamente cosmopolita. Aproveitei os dias ensolarados nessa cidade equilibrada entre a Europa e a Ásia para passear muito (dos bairros mais turísticos aos mais descolados — já ouviu falar de Balat e Kuzguncuk?) e descansar à beira do Bósforo. Foi ali, também, que tive minha primeira vez em um hospital turco, devido a uma dor de dente.

Logo, era hora de voltar ao Hemisfério Sul e alcançar meu continente favorito, a África, para as duas últimas paradas da viagem. Em Moçambique, deixei meu queixo cair várias vezes ao dia com a beleza natural, surreal e selvagem — dentro e fora d’água — da divina Benguerra e seu arquipélago de Bazaruto. Que lugar! Ali, conheci também meu novo hotel favorito da vida: o sustentável Kisawa Sanctuary, na pontinha sul da ilha.

Como dei a volta ao mundo em 50 dias usando passagem Round The World?  — Foto: Mari Campos
Como dei a volta ao mundo em 50 dias usando passagem Round The World? — Foto: Mari Campos

A África do Sul foi o gran finale desta viagem quase épica. O país africano mais amado pelos brasileiros também é paixão antiga para mim. Passei dias lindos e divertidos na vibrante Joanesburgo e na bela Cidade do Cabo; e, como boa aficionada por safáris, também fiz questão de escapar para as savanas, passando alguns dias entre as mais fascinantes espécies de vida selvagem.

Foi ainda no aeroporto da Cidade do Cabo, meio emocionada, prestes a tomar o último voo desta linda aventura, que comecei uma nova lista — que segue em constante atualização —: a dos destinos que quero visitar na próxima volta ao mundo.

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