Moda europeia? Chinelo também é símbolo de soberania do Brasil
Eleito um dos itens de moda mais populares neste ano, o calçado viralizou no TikTok como uma peça do estilo dinamarquês, gerando reinvindicações dos brasileiros
Na moral, com todo respeito: como carioca, me sinto pessoalmente ofendida com essa galera do TikTok querendo associar o uso de chinelos nos looks a uma estética dinamarquesa. “The Copenhagen way”, oi?
Até os chinelos eles querem colonizar? Pegar um item de moda que faz parte da identidade cultural de um país latino e atribuir a um país europeu? “Ah, mas elas usam chinelo com looks arrumadinhos.” Carioca também. Há anos? Não, há décadas.
Os chinelos — ou flip flops, como os gringos preferem — surgiram no Brasil nos anos 60, inspirados nas sandálias japonesas e adaptados ao nosso clima tropical. O sucesso foi imediato: confortáveis, resistentes e acessíveis, eles logo se tornaram essenciais no cotidiano brasileiro. Tanto que já integraram a cesta básica, com preço tabelado pelo governo.
Por muito tempo, os chinelos foram associados ao trabalhador e aos momentos de lazer. Sua ascensão à moda se deu na virada dos anos 2000, com o lançamento das versões coloridas das Havaianas. As cores vibrantes, aliadas ao material ideal para as areias e pedras portuguesas do Rio, conquistaram espaço nos looks das garotas da Zona Sul. Esse movimento caminhou junto com a explosão de marcas como a Farm, que traduziram em roupas o lifestyle despretensioso, fresco e colorido da juventude carioca.
Mas não era só em Ipanema que os chinelos desfilavam estilo. Enquanto as garotas da Zona Sul apostavam nas Havaianas da praia ao pós-praia, nas favelas do Rio outro modelo ganhava destaque: as Kenners. Com design mais robusto, inspiradas inicialmente nos surfistas da Califórnia, elas se tornaram símbolo de status nas periferias cariocas — e depois, do Brasil inteiro. Item de palco de funkeiros e rappers, as Kenner são ícone de uma estética periférica potente, que traduz identidade, desejo e ascensão social.
Em qualquer classe social e em qualquer estação do ano, o chinelo faz parte do cotidiano e da estética, não só carioca, mas brasileira. Hoje, estima-se que 94% da população brasileira tenha ao menos um par de Havaianas em casa.
Com o crescimento do brazilcore — das blusinhas verde-e-amarelas com “Brasil” no peito ao funk estampando o álbum country da Beyoncé, passando por comerciais da Apple, campanha da Paco Rabanne na Rocinha e o Oscar de "Ainda Estou Aqui" — o Brasil é o momento. E nada mais natural que uma peça tão brasileira conquiste corações mundo afora.
Não é de hoje que os flip flops aparecem no street style da Copenhagen Fashion Week — considerada uma das mais inovadoras do circuito. Sem dúvidas, o uso dos chinelos por dinamarquesas nas últimas temporadas contribuiu para que o item se consolidasse como grande tendência do verão europeu. A própria Havaianas soube surfar bem essa onda, com sua nova estratégia de reposicionamento global: Gigi Hadid como embaixadora, parceria com a Dolce & Gabbana e o lançamento do primeiro modelo 3D em colaboração com a Zellerfeld — estreado justamente na semana de moda de Copenhagen.
É ótimo ver que, do outro lado do mundo, numa cultura completamente diferente da nossa, nossos chinelos são objeto de desejo. Mas não podemos deixar que esse ícone da nossa identidade nacional seja apropriado e rebatizado pelos gringos. É agora que precisamos ativar nossa potência de mobilização nas redes para reivindicar a autoria e o valor simbólico desse patrimônio cultural brasileiro.
Respeitem a nossa história.









