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"Estou chegando a um espaço que o sistema afirmava que um menino preto, quilombola e da periferia não chegaria. Fico até emocionado." Com origens em Jequié, na Bahia, mais precisamente no quilombo do Barro Preto, Dih Morais está em São Paulo há um ano e meio, apenas três meses com espaço próprio, um ateliê no 21º andar de um prédio tombado no centro histórico. "Costumo dizer que aqui não é um ateliê, e sim um quilombo em que as pessoas contam suas histórias para transformar as memórias em afetividade através da arte."

Carregando a moda como vivência e ancestralidade, viu na confecção de bolsas uma saída para conseguir dinheiro, em 2012, quando ainda morava no Nordeste. "Precisava me manter vivo, resistir ao sistema", conta. Um pouco mais de uma década depois, enviou um croqui para Yan Acioli, então stylist de Thelminha. O sucesso foi tanto que Dih desenhou um dos looks que a apresentadora usou para os ensaios de Carnaval do ano passado. "A peça era um vestido composto por cabaças, que simboliza o renascimento e a fertilidade. O figurino deu frutos. Tudo tem um motivo, sou muito grato a ela", diz.

Peças confeccionadas em fibras naturais de Dih Morais — Foto: Jorge Luiz Garcia/Divulgação
Peças confeccionadas em fibras naturais de Dih Morais — Foto: Jorge Luiz Garcia/Divulgação

O estilista se prepara para o primeiro desfile solo, que integra o line-up da 8ª edição do Brasil Eco Fashion Week, em dezembro, com a presença do babalorixá Rodney William.  "O tema é o Quilombo do Barro Preto. É importante não esquecer de onde vim. Senti a necessidade de contar minha história. No mês de outubro, passei uns dias em Jequié em uma imersão para a construção da coleção, que conta com a ajuda das mulheres do quilombo para fomentar a arte e o empoderamento delas."

Quem também é uma referência na vida do criativo é a avó, Maria da Conceição. "Quero levar o legado dela para a passarela. Para nos sustentar, ela saía pedindo ajuda nas casas dos bairros mais nobres da cidade. Quando tinha enchente no rio atrás de onde morava, pescava os peixes com um balaio para nos alimentar e dividíamos o mesmo alimento com a comunidade. No desfile, há tramas de crochê que remetem ao cesto de pesca e fios que trazem a perspectiva das ondas do rio", compartilha o estilista. Os olhos de dona Maria da Conceição, carinhosamente chamada de Mainha, também estarão expostos em uma fotografia de Thiago Santos, através do projeto Olhe pra Mim.

Dih mostrará 12 looks na apresentação com aplicações de upcycling e fibras naturais como palha da costa, linho, cabaça e algodão em crochê. "Não terei apoio de instituição ou marca para o desfile. Eu que fiz as roupas, os sapatos e acessórios. Difícil conseguir ajuda sendo uma marca preta, quilombola e de matriz africana. O que será mostrado é fruto de muito suor", afirma.

O artista indígena do povo Karipuna, Dieimisom Sfair, será o responsável pelas biojoias da apresentação. "Para mim, a moda não é só usar a roupa, é contar história. Quero mostrar povos e classes que são invisibilizados pela passarela, quero mandar uma mensagem para a sociedade."

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