Pharrell Williams na Louis Vuitton: posição de diretor criativo gera debate na web
Há mais de 20 anos, o produtor musical assina colaborações com grandes grifes e já fundou duas marcas autorais. Por que seu novo posto foi tão comentado?
Por Ana Carolina Pinheiro (@anacarolipa)
Era à construção de objetos que o jovem Virgil Abloh dedicava boa parte do seu tempo na infância vivida nas ruas de Chicago, EUA. Filho de costureira e de um trabalhador de uma fábrica de tintas, o designer recriou as joias dos rappers que admirava em correntes de clipes. Transformou também o seu desejo por liberdade em aviões de papel, que mais tarde foram levados às suas criações para uma das maiores grifes internacionais assim que assumiu o posto de diretor criativo da linha masculina da Louis Vuitton.
Os indícios de que o arquiteto tinha essência inerente à criação sempre estiveram ali e com um incentivador, Pharrell Williams, com perfil disruptivo similar ao seu. Como contou em entrevista ao New York Times em março de 2020, o designer via o produtor musical como um ponto fora da curva. "O protótipo na época era que você tinha que ser um bandido, um atleta ou um rapper. E então ele [Pharrell] apareceu com um estilo diferente como produtor, artista, formador de opinião, indivíduo."
Possivelmente, nem os pensamentos vanguardistas do pequeno Virgil, morto precocemente em 2021 em decorrência de um câncer no coração, imaginaria que em 2023 um de seus ídolos daria continuidade ao seu legado à frente da direção da mesma linha na Louis Vuitton. Nas palavras de Pietro Beccari, CEO da Louis Vuitton, Pharrell retorna ao Grupo LVMH, depois de colaborações em 2004 e 2008, para contribuir com "sua visão criativa, para além da moda vai, sem dúvidas, levar a Louis Vuitton para um novo e excitante capítulo."
A notícia tomou conta do segmento ao ser revelada e ascendeu duas vertentes nas redes sociais desde o anúncio feito nessa terça-feira, 14.02. Interessados pelo universo da moda e personalidades da área, como o estilista afro-americano Dapper Dan, comemoram a chegada do artista e produtor musical, que ramifica seu trabalho para o vestuário desde os anos 2000. "Parabéns ao Pharrell por se tornar o próximo diretor criativo masculino da Louis Vuitton. Ele é a próxima esperança negra da moda de luxo", escreveu Dapper.
A diretora de design de joias da Dior, Yoon Ahn, usou o Twitter para refletir sobre uma nova seara, na qual a moda vem mergulhando. "A moda agora é uma plataforma e a LV está prestes a se tornar uma grande casa de mídia de massa. Superanimada para ver que mágica o Pharrell vai trazer ‼️. Parabéns", disse a criativa.
Para recapitular alguns passos das duas últimas décadas que levaram Pharrel a esse posto, o diretor tem colaborações com grandes marcas, como Chanel, Adidas, Moncler, reconhecimento de ícone fashion pela CFDA Fashion Awards e uma passagem pela Bionic Yarn como diretor criativo em 2014. Ainda criou as etiquetas de streetwear Billionaire Boys Club, parceria com o estilista japonês Nigo, e Ice Cream, voltada para a produção de tênis do universo do skate.
O histórico de Pharrell é robusto, mas questionamentos em relação à formação técnica e o impacto marketeiro que uma personalidade do mainstream provoca nas vendas da marca foram levantados. Produtora de conteúdo e colunista da Glamour, Verena Figueiredo compartilhou a visão de que profissionais que não dedicam a carreira primariamente à parte criativa tendem a precisar de uma equipe "muito preparada" para compensar um possível déficit.
Assim como ela, o diretor criativo Joseph Keefer também dividiu uma opinião similar pelo Twitter. "Pharrell é um grande talento na música. Pharrell no comando de LV será uma rotação de colaboradores ala Dior Mens. Não é emocionante, não é interessante, é marketing, faz barulho, nos faz falar. Esse é o propósito das coleções LV, então acho que funciona."
Virgil, um questionador nato, teve esse lado endossado na exposição em homenagem ao seu legado no Museu do Brooklyn, em Nova York, por meio de uma bandeira com uma frase sua: "questionar tudo". Assim como Pharrell agora, Abloh também teve seu nome no alvo de críticos, em 2018, quando foi escolhido para substituir Kim Jones, tornando-se assim o primeiro diretor artístico negro da grife.
Certamente, Virgil e Pharrell não ficaram surpresos por lidar com olhares de desconfiança em relação ao futuro de ambos em cargos de liderança e, provavelmente, se colocariam abertos para debates saudáveis sobre como é possível fortalecer diferentes atuações e realidades dentro de uma marca.
Em comum, os dois também dividem a missão de repensar estruturas e códigos a partir de uma visão racializada. Uma mudança que estruturalmente pode gerar choque e desconforto, principalmente em uma sociedade que lentamente se depara com as camadas profundas do racismo.
Talvez, isso explique o porquê de um artista branco não ser cobrado de tantas validações e diplomas como um preto é. Afinal, não é novidade no mercado da moda (e fora dele) encontrar celebridades e influenciadores sendo direcionados a cargos sem ligação direta à sua área de formação e pulando degraus, mas com uma recepção mais branda em relação a essa.









