Brechó, quiet luxury e mudança de visual: figurinista de “Vale Tudo” faz um raio-x no estilo de personagens
Marie Salles entrega curiosidades e dicas para encontrar os looks de Maria de Fátima, Solange Duprat, Odete Roitman, Raquel Acioli e Heleninha Roitman
Quando puxamos o retrospectivo de itens de moda que fizeram sucesso em novelas, é comum destacar exemplos de personagens pontuais, como o lenço da Viúva Porcina, em "Roque Santeiro", ou a minissaia da Darlene, em "Celebridades". Mas, em "Vale Tudo", essa lógica cai por terra, já que todos os núcleos da novela carregam figuras com estilo marcante.
Para a sensualidade de Maria de Fátima (Bella Campos), há o toque mais recatado de Raquel Acioly (Tais Araújo). Para a sobriedade de Odete Roitman (Débora Bloch), há o frescor de Solange Duprat (Alice Wegmann). O contraste dessas duplas e de outras tem sido coordenado por Marie Salles, figurinista responsável pela trama das 9h, que pinça apostas da moda nacional e de fora do País para equacionar esses visuais.
Após um mês de novela, Marie entrega bastidores do figurino, que registra esse momento da trama, e entrega o caminho das pedras para quem quer ir direto na fonte e garimpar ou comprar nas marcas e brechós frequentados por Fátima, Solange, Odete, Heleninha (Paola Oliveira) e Raquel.
Marie, quero começar com um encontro que me fez brilhar os olhos: Maria de Fátima e Rober Dognani. Você contou que o desfile dele na Casa de Criadores te inspirou a levar peças para o figurino do editorial. Naquele caso, o look foi pensado para contestar a personagem, mas queria saber quais marcas ou desfiles você identifica a energia da Fátima?
Nessa fase da novela, a Maria de Fátima tem uma energia mais imediatista. Ela usa roupas de uma moda mais rápida, de fácil entendimento. Mas por meio delas, ela já mostra que é ambiciosa e quer mais do que tem. Ela segue mídias sociais, é antenada e faz o que pode com poucos recursos. O verde e o roxo são as suas cores predominantes. Entre as marcas que ela usa, estão Lacoste, Carol Bassi, Carlos Penna, Coach. Ela faz o contraponto com a Solange. O jeito que ela se veste se encontra nas redes sociais. Ela não é muito elaborada, mas isso vai mudar no decorrer da trama.
Se você tivesse que elencar peças que personificam a essência da Solange Duprat, quais seriam?
Sem dúvida, as listras, as bermudas com blazer oversized, as combinações de seda com blazer, além dos arcos e laços. O que faz o diferencial da Solange é o styling. A gente entrega alguns easter eggs no figurino dela. Na cena em que a Odete oferece um emprego em Paris para convencer Afonso a voltar a morar lá, o look que a Solange usa traz referência ao figurino de Lídia Brondi na primeira versão, por exemplo.
A Solange tem muita roupa garimpada em brechó, né? Você pode dividir quais foram os lugares que vocês garimparam?
A Solange é muito ligada ao meio ambiente, à sustentabilidade. Com essas características, a gente achou bacana fazer uma personagem que usa 90% das peças de second hand. As roupas dela foram compradas em brechós, tanto de luxo como de igrejas, feiras. Garimpamos no O Grito, Take me, Trash Chic, Txello Vintage, Desapega, Serpentine Vintage, entre outros. Ela tem um pouco de tudo. É uma roupa bem ressignificada.
Já sabemos que, diferente da versão Beatriz Segall, a Odete da Débora terá um mix de marcas nacionais e de fora. O que esse mix de nacionalidade trouxe de diferente para o closet da personagem de 2025?
Odete é uma mulher clássica, esnobe, austera, autoritária e, acima de tudo, chique. Para compor a personagem, comecei estudando os anos 40, o estilo work, mulheres poderosas contemporâneas. Me debrucei na obra do Thierry Mugler dos anos 80 e nas atrizes dos 40 e desenvolvi roupas com alguns figurinistas brasileiros, como Alexandre Herchcovitch, Vitor Zerbinato, Sandro Barros e Mateus Cardoso. Ela é clássica, usa camisas de laço, os tailleurs, a cintura marcada e os ombros estruturados, mas tem uma contemporaneidade na Odete. Ela é uma businesswoman de 2025, que mistura joias de antiquário com a bolsa da nova coleção de uma marca tradicional, mas pode usar uma joia de família misturada com uma joia de design super contemporâneo.
E ainda há chances de ter looks exclusivos da Odete assinados por alguma mulher?
Pode ter, sim. Não descartamos essa possibilidade.
Agora, falando da Raquel, a personagem tem uma ascensão social ao longo da trama. Como essa mudança é refletida no figurino dela?
Ainda estamos construindo a nova fase da Raquel. Mas, certamente, a estampa ficará.
Quais são as peças que não podem faltar no guarda-roupa da Heleninha?
Ela está sempre com um casaco, uma camisa por cima da roupa. Ela quase sempre usa uma terceira peça, e também tecidos fluidos e moles com uma paleta clássica de caramelo, azul marinho, verde e bordô.
Qual personagem você acha que teve o guarda-roupa mais atualizado em relação à versão original?
Sem dúvida, a Raquel. Conquistamos nossos espaços e isso reflete na roupa da Raquel, que hoje em dia, é colorida, estampada e do corre.
Quantos looks foram feitos para a novela até agora e qual foi o mais trabalhoso ou com um simbolismo por trás, que te marcou de forma especial?
São muitos looks! O figurino da Odete é bem trabalhoso, e até encontrar o conceito, o da Solange também foi.
Por fim, a novela tem como cerne essa questão da ética, né? Para você, qual é a maior hipocrisia que a moda carrega?
A moda engloba muita coisa. Não é só a tendência da última coleção. E a maioria das pessoas não entendeu isso ainda.









