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Moda
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Officecore e office siren. Basta scrollar por poucos minutos o nicho fashionista do TikTok para se deparar com revival de alguma tendência repaginada com novo nome. Essas duas, por exemplo, bebem da mesma fonte de referência de uma que existe há mais de 40 anos: o power dressing. Inspiradas pelos manuais de autoajuda Dress for Success e The Women's Dress for Success Book, de John T. Molloy, as mulheres elegeram o terninho como aliado para adentrar o mercado de trabalho no fim dos anos 1970 e meados da década seguinte, principalmente na região de Wall Street, coração financeiro dos Estados Unidos.

A problemática é apontada por Marco Normando, uma das mentes criativas por trás da Normando, marca integrante do São Paulo Fashion Week. "Naquele momento, a perspectiva era de aproximar a mulher do homem, como se ela precisasse se descaracterizar para ganhar força", o que é completado por Manu Carvalho, stylist e consultora de moda. "O power dressing é um belo recurso. Uma ferramenta imagética ao visual do dia a dia para trazer potência, autoridade, confiança para a imagem e para a autoimagem da mulher." Foi com a alfaiataria, em cartela de cores mais neutras e corporativas, como preto, azul-marinho e cinza, além de padronagens como risca de giz e o xadrez príncipe de Gales, que vencemos mais uma batalha — não a guerra — em busca de equidade em meio à sociedade patriarcal, como retratado, por exemplo, em Uma Secretária do Futuro (1988).

Erika Hilton — Foto: Instagram
Erika Hilton — Foto: Instagram

Se, na época, as mulheres precisavam da ajuda das ombreiras para se sentir mais empoderadas no mercado de trabalho, qual é o motivo do retorno do power dressing? A resposta é simples: ainda brigamos por direitos iguais, e com ainda mais força, dado a ascensão de políticos conservadores que visam restringir os direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIAPN+. "Ocupamos mais espaço, mas ainda não estamos de igual para igual. Nem em número de profissionais, nem em número de ganhos, nem na equiparação de direitos. Então, temos muita luta ainda e muito espaço para ocupar", diz Manu. No Brasil, a igualdade salarial entre mulheres e homens está prevista na CLT desde 1943, mas ainda parece um sonho distante, principalmente em períodos de incertezas tanto políticas quanto econômicas.

Na semana de moda de Paris, a tendência ganhou a passarela, por exemplo, do desfile de inverno 2025 da Saint Laurent, sob o comando do belga Anthony Vaccarello. Ombreiras poderosas ao lado de saias e vestidos com comprimentos a partir dos joelhos resgataram o vestuário como ferramenta de afirmação feminina em tempos desafiadores. A altura das saias, inclusive, se conecta com "The Hemline Index" ("índice de bainha"), teoria sempre debatida nas redes sociais que indica que seus comprimentos crescem durante épocas de recessão, enquanto encurtam em períodos históricos de maior otimismo. Na coleção da Saint Laurent, os ternos também se relacionam com inspiração de outra obra marcante do cinema, o filme Psicopata Americano (2000), que retrata o mercado de trabalho nos anos 1980, em que o protagonista, interpretado por Christian Bale, usa blazers, calças e gravatas da italiana Giorgio Armani. "São três fatores para interpretar a tendência: o primeiro é que as lideranças sempre foram associadas aos homens. Segundo, que as mulheres precisam se armar novamente devido ao momento em que vivemos, com os 'trumpistas', incels, red pill e tradwife, e a recessão. A terceira é que o hipercasual cansou. As marcas apostaram no imperativo do conforto mostrando que dava para ser gata e confortável ao mesmo tempo. Um exemplo é a quantidade de tênis que as marcas internacionais estão apresentando e que, antes, só vendiam mocassim e olhe lá", analisa Iza Dezon, CEO da Dezon, empresa especialista em mapear tendências.

Desfile Normando na São Paulo Fashion Week — Foto: Spotlight Launchmetrics
Desfile Normando na São Paulo Fashion Week — Foto: Spotlight Launchmetrics

Primeira deputada federal negra e trans do Brasil, Erika Hilton é o exemplo quando falamos do empoderamento feminino através do power dressing atual. "A ideia da roupa, não apenas de uma marca, mas de moda e de estéticas poderosas como um todo, é fundamental em momentos em que identidades como a minha, por exemplo, são diminuídas, colocadas para baixo e menosprezadas. Uma estética poderosa chega antes da gente. Ela já nos impõe, nos empodera antes mesmo da nossa presença corporal. A pessoa olha de longe e já entende que comunica respeitabilidade, presença e autenticidade, o que é fundamental porque simboliza todos esses elementos juntos e misturados", contou a parlamentar. "Erika já dá a cara a tapa por ser uma mulher trans lidando com um monte de políticos muitas vezes mais velhos e conservadores. Ser uma mulher trans em Brasília é uma forma imensa de empoderamento. Ela entendeu como a moda pode ajudá-la juntamente com o fortalecimento da fala e da coerência, mesmo sendo julgada nesse local. A roupa também é política", aponta Marco. "É um legado de outras mulheres que estão na política, como Michelle Obama e Alexandria Ocasio-Cortez, que não deixam o lado feminino se perder em um ambiente machista. Um exemplo é que elas usam o batom vermelho como armadura, para se sentirem mais imponentes", concorda Iza.

A versão 2025 aparece mais leve: em vez de ombreiras gigantes e salto alto fino, o power dressing atual mostra que tecidos tecnológicos, bons arremates e caimentos, cartela de cores mais vibrante e, claro, peças mais confortáveis do que as dos anos 1980 são os focos da alfaiataria. "Anteriormente, a tendência era de que o visual precisava se aproximar de um ideal masculino, descaracterizando a mulher. Agora, as mulheres podem se expressar como quiserem, até com novas tecnologias voltadas à sustentabilidade como látex amazônico", detalha o designer.

Desfile Saint Laurent na semana de moda de Paris — Foto: Spotlight Launchmetrics
Desfile Saint Laurent na semana de moda de Paris — Foto: Spotlight Launchmetrics

Retorno importante ou tendência líquida?

Por mais que tenha significado importante por trás, será que o power dressing sobrevive a uma temporada ou é mais uma tendência liquída que se evapora no próximo interesse do TikTok? "A roupa comunica o período em que estamos vivendo, como um espelhamento. Por exemplo, após a pandemia de covid-19, muitas mulheres passaram a se vestir como se fossem para uma festa. Assim como veio, deu adeus para o quiet luxury que também não está mais em alta. Pode ser que depois do power dressing, as mulheres voltem com os vestidos de festas contra o tempo de recessão econômica, como uma fuga para novas narrativas", pensa Marco. "A tendência está na moda. O assunto em alta. O empoderamento feminino é uma ideia recorrente, não apenas na moda, mas em diversas frentes. Estamos nas lojas buscando esses ingredientes, estamos no armário procurando peças para as lutas diárias. Essa resposta de mercado da moda é natural", explica Manu. "O que imagino que vai ficar é a busca por matérias-primas e acabamentos melhores. Não apenas uma roupa descartável, que não vai durar muito, devido à recessão econômica. A duração da tendência é uma conversa sazonal, precisamos entender como será absorvida pelo varejo", encerra Iza. No fim, a moda, mesmo com viés importante, depende de quanto vai vender.

* Matéria originalmente publicada na edição digital de Glamour Brasil no mês de junho de 2025

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