Por que a moda está obcecada por comida?
O flerte da moda com a gastronomia em 2025 vai além de simplesmente exibir nossos gostos
Uma porção perfeita de molho alaranjado, contornada por uma borda preta intensa, repousava no centro do meu prato. Poderia muito bem ser uma obra de arte convincente no Tate Modern — não fosse pelo fato de eu precisar mergulhar ali quatro talos de aspargos perfeitamente grelhados e comê-los. “Chamamos de molho Kenzo”, diz Santiago Lastra, chef e cofundador do restaurante KOL, premiado com estrela Michelin, e criador desse prato delicioso inspirado no ícone do tigre presente no logotipo da marca de moda japonesa. Por trás de seu charme juvenil, o mexicano é um chef de respeito, que fez carreira em restaurantes de renome como o Noma, antes de figurar na lista dos 50 melhores do mundo com seu próprio restaurante em Mayfair. Entre os frequentadores assíduos do KOL estão Dua Lipa e Tom Cruise, que não se cansam dos sabores centro-americanos criativos de Santiago, feitos com ingredientes locais britânicos. Mas quem tiver a sorte de experimentar o menu do chef pode notar algo a mais. “Veja bem, não fazemos aquela apresentação tradicional, com cinco gotinhas e uma torradinha”, diz ele. “É algo mais conceitual ou abstrato, com muita inspiração na moda.”
Como se fosse ensaiado, chega à mesa um pequeno prato redondo, forrado com tiras de talos de vegetais em tons de vermelho e verde, dispostas sobre uma base de tamal aromatizado com fava tonka. Se as cores e as linhas geométricas parecem familiares, é porque essa entrada foi inspirada na icônica estampa em zigue-zague da grife italiana de luxo Missoni. “Foi há alguns anos que um diretor de cinema veio ao KOL e me perguntou com que frequência eu mudava o menu. Respondi que fazemos três menus (primavera, verão e inverno), e ele comparou isso com as estações da moda”, conta Santiago à GLAMOUR. “Fui para casa e não consegui parar de pensar nisso. Percebi que existe uma sinergia entre moda e gastronomia no que diz respeito ao processo criativo. Ambas são sazonais — no verão, você usa roupas mais leves e come alimentos mais leves —, mas também há semelhanças entre criar uma coleção de moda e desenhar um menu.”
O flerte da moda com a gastronomia remonta aos tempos antigos. “Não há como determinar exatamente quando isso começou; é possível ver tecidos antigos com romãs entrelaçadas em seus padrões, mas foi no final do século XVIII, na França, que Luís XIV passou a associar o luxo — como a comida e a moda — a um fenômeno francês, um motor econômico, uma forma de soft power”, explica a Dra. Elizabeth Way, historiadora da moda e curadora de figurinos e acessórios do museu do Fashion Institute of Technology (FIT). Ao lado de sua colega Melissa Marra-Alvarez, curadora de educação e pesquisa, a dupla organizou a fascinante exposição “Food and Fashion” em 2023.
Avançando para os séculos XX e XXI, a moda se encantou com a comida como forma de iconografia, e o co-branding se tornou o símbolo da nossa sociedade hiperconsumista. Pense no desfile do supermercado Chanel de Karl Lagerfeld, com bolsas clutch em forma de pratos de porcelana e as clássicas flap bags embaladas em plástico filme como um filé premium, ou nas criações irreverentes de Jeremy Scott para a Moschino, estampadas com o logo do McDonald's. “No início, era sobre a moda vestindo a comida, mas agora acho que o que começamos a ver cada vez mais é quase como se a comida estivesse vestindo a moda”, afirma Melissa
Diante da desaceleração do mercado de luxo e da crescente crise do custo de vida, a necessidade de as marcas criarem pontos de contato mais acessíveis nunca foi tão urgente. A designer britânica Anya Hindmarch foi uma pioneira nesse espaço, entendendo desde cedo que seus clientes talvez não pudessem desembolsar milhares de libras por uma de suas bolsas de luxo — mas poderiam sentir o mesmo prazer instantâneo ao comprar um bolo com olhos esbugalhados ou um sorvete com sabor de molho de soja em sua sorveteria homônima na Sloane Square. Pode-se dizer que esta é a versão da nossa década do “índice do batom”, o fenômeno do pós-Segunda Guerra Mundial que observou o aumento nas vendas de luxos acessíveis — como batons — durante períodos de crise econômica. Essa também se tornou uma forma de as marcas de luxo manterem seu público engajado em meio a uma economia instável. “Luxos efêmeros e acessíveis, como a comida, podem ser reconfortantes de várias maneiras em tempos econômicos tão difíceis”, acrescenta Melissa. “A geração Boomer era voltada para a posse de bens, enquanto as gerações mais jovens, como a Z e os Millennials, se importam mais com experiências — porque, mesmo que não possam comprar algo, quando vivem uma experiência, sentem que podem guardá-la por mais tempo.”
O Prada Caffè na Harrods é um exemplo emblemático. Basta passar pela esquina da Hans Road, onde fica a luxuosa loja de departamentos, em qualquer dia, e você certamente verá filas de turistas diante do toldo verde-menta da Prada, ansiosos para experimentar suas reluzentes sobremesas triangulares. “Enquanto nossos clientes no varejo costumam ser consumidores experientes do mercado de luxo, o Caffè atrai um público mais amplo, incluindo pessoas que talvez estejam tendo seu primeiro contato com a marca”, afirma Alex Unitt, diretor de parcerias da Harrods. “É também extremamente popular entre os públicos digitais, influenciadores e aqueles que buscam momentos de estilo de vida memoráveis. Os clientes ficam visivelmente empolgados quando chega um café ou sobremesa com o logo da Prada — é a fusão perfeita entre moda e hospitalidade. Vemos os celulares saírem dos bolsos, fotos sendo tiradas e a experiência sendo compartilhada nas redes sociais.”
As redes sociais são reconhecidas por lançar tendências diariamente — e a ascensão da alta gastronomia ligada à moda também deve muito à proliferação do Instagram. Ao abrirem as portas de seus mundos altamente curados para um público mais amplo, as marcas ganham “publicidade gratuita quando as pessoas postam nas redes sociais antes mesmo de comprarem um perfume, uma bolsa ou uma roupa”, afirma Elizabeth. Se antes apenas Giorgio Armani e Ralph Lauren dominavam o território dos restaurantes, hoje parece que toda semana, neste verão, uma nova casa de moda de luxo entra em cena. A Louis Vuitton inaugurou no mês passado seu restaurante em St. Tropez, no Hotel White 1921, enquanto a Lacoste lançou o menu Summer by Lacoste no Shangri-La Paris — incluindo waffles “inspirados na Lacoste”. E os rumores já estão circulando: é possível que em breve vejamos um restaurante da Prada no badalado bairro do SoHo, em Nova York. Como Melissa sugeriu, antigamente era a moda que "vestia" a comida — mas o poder das redes sociais foi tal que passou a influenciar a comida a "vestir" a moda. “Acho que um dos motivos pelos quais me esforço tanto para que tudo seja bonito é pelas fotos que as pessoas vão tirar e compartilhar. Quero que todos façam imagens incríveis e icônicas quando vêm ao KOL, para que os outros vejam o quanto os pratos são únicos”, diz Santiago. Ele apresenta um picolé de jalapeño, polvilhado com formigas azedas (sim, o inseto!), apoiado sobre um bloco de madeira que imita aqueles suportes elegantes usados para expor sapatos em lojas antigas da Oxford Street. “Acredito que, sem as redes sociais, talvez não precisássemos nos esforçar tanto na apresentação, porque antes competíamos apenas com os restaurantes que as pessoas visitavam. Agora, com as redes sociais, competimos com todos os restaurantes do mundo que têm uma conta ativa — então, é muito mais desafiador ser único.”
Santiago também tem observado a moda ir além das estampas de abacaxi e, de fato, usar o abacaxi como um material viável e ecológico. “A moda de luxo está voltando a utilizar materiais mais orgânicos e a refletir sobre sustentabilidade, o que a aproxima cada vez mais do ethos de um chef”, afirma Santiago. Afinal, o movimento da slow fashion surgiu da necessidade urgente de a indústria adotar práticas mais sustentáveis — e se inspirou no movimento slow food, que defende o uso de ingredientes sazonais e locais. Stella McCartney, uma pioneira da moda sustentável, há tempos investe e milita a favor de alternativas ao couro, utilizando, por exemplo, couro de “cogumelo” à base de micélio em suas coleções ready-to-wear. Sua coleção de 2025 é a mais sustentável até agora e traz, pela primeira vez, uma bolsa confeccionada com Hydefy — um substituto vegano ao couro, feito a partir de fungos —, além de peças produzidas com Kelsun, um tecido à base de algas marinhas que está sendo usado comercialmente no mercado de luxo pela primeira vez.
Cogumelo, abacaxi, cacto… esses são apenas alguns dos materiais alternativos ao couro que estão sendo adotados por casas de moda de luxo, de Chanel a Hermès. Mas agora, não é só a comida que está invadindo as passarelas — os chefs também começaram a dominar as passarelas, com destaque para Danny Bowien, chef do restaurante Mission Chinese, em Nova York, que já desfilou para marcas como Eckhaus Latta, Sandy Liang e Collina Strada. Mais recentemente, em maio deste ano, Kwame Onwuachi brilhou no tapete vermelho do MET Gala. O chef vencedor do prêmio James Beard e responsável pelo restaurante Tatiana, em Nova York, também foi o curador do jantar da noite, inspirado em suas raízes nigeriano-jamaicanas.
O sucesso da série vencedora do Emmy The Bear, que acaba de lançar sua quarta temporada, prova que nossa obsessão pela comida saltou do prato e se voltou para os próprios chefs. Mesmo em uma trama sobre traumas familiares e os perigos da indústria de restaurantes, a moda se tornou um elemento da história, com um jaleco de chef personalizado da Thom Browne que Carmy (Jeremy Allen White) presenteia Sydney (Ayo Edebiri). Jeremy ainda estrelou uma campanha viral da Calvin Klein, modelando apenas de roupa íntima. “Esses anúncios da Calvin Klein deixaram o chef sexy”, diz Santiago. “Por muito tempo, a imagem do chef foi a de um homem mais velho, rechonchudo, com um avental sujo, mas hoje os chefs estão mais conscientes da saúde e têm interesse em outras áreas, como moda e estilo de vida. Eles estão se tornando uma espécie de celebridades, com voz e influência em diferentes esferas.” Embora provavelmente não vejamos Santiago Lastra desfilando na passarela tão cedo, ele certamente não parecia nada desleixado ao subir para receber seu prêmio pelo KOL, que mais uma vez entrou na lista dos 50 Melhores Restaurantes do Mundo — um dos apenas dois restaurantes de Londres a conquistar essa posição para 2025. Ele subiu ao prestigiado palco vestindo um elegante terno em espinha de peixe, com uma camisa estampada com o famoso padrão em zigue-zague espreitando por baixo. Quem vestiu esse talento culinário em ascensão para a ocasião? Claro, Missoni.
*Esta matéria foi publicada originalmente na Glamour UK e adaptada por Ana Carolina Pinheiro.









