Entenda como a vida doméstica virou tendência de moda em 2025
A despreocupação de estar em casa e a rotina do trabalho doméstico ocupam as ruas e as passarelas com peças literais ou repaginadas a partir desse universo
O tempo destinado às atividades banais do lar tem ganhado nova roupagem, literalmente, distanciando-se de uma ideia desvalorizada para alcançar status de desejo nas redes sociais. Quem encontra brechas na agenda para garantir as leguminosas da semana na feira do bairro em vez da seção de hortifrúti do supermercado, ou se permite passar o dia de pijama?
São raridades que, de fato, configuraram uma vida de luxo e foram até mimetizadas por grifes e pelo street style nas últimas temporadas. Em uma espécie de reformulação do quiet luxury, o homecore (ou preguiçoso luxo) segue fiel ao apreço pela qualidade das peças, mas com uma pitada divertida e mais descomplicada quando comparada à primeira tendência.
"O conforto sempre esteve presente, mas agora ele ganha outro sentido. Não é mais só sobre tecidos macios, é sobre o que traz calma e vira uma extensão da casa sem perder intenção", considera Symone Rech, especialista em negócios de moda e fundadora da plataforma de tendências New & Now.
O planejamento não é um mero detalhe nessa aposta. O hub de inteligência de negócios de moda Woven Insights prevê que 72% dos consumidores de moda contemporânea atrelam o conforto ao conceito de modernos.
“O despretensioso hoje é o novo planejado, logo existe método no aparente descanso”, defende Simone, ajudando a entender por que um pijama da Dolce & Gabbana tem mais potencial de ser visto em ruas badaladas e quarteirões fashionistas. Domenico Dolce confessou aos jornalistas, logo após o desfile da coleção de primavera/verão 2026 em Milão, que a ideia de levar o pijama para além da da cama é um aceno à gen z.
"Essa nova geração não se veste com tanta produção. Eles são muito mais descontraídos." Ainda assim, ele e Stefano Gabbana somaram ao underwear a alfaiataria, bota over the knee e casaco de pelos, dando possibilidades aos mais irreverentes de embarcarem no mood preguiça.
A sacada dos estilistas vai de encontro à ideia de lugar-comum explorado pela moda, segundo Andreia Meneguete, professora na ESPM e mestra em moda e luxo pela Universidade de São Paulo. "As grifes têm que atender até cinco gerações sem perder a essência da própria marca. Casa é algo que atravessa a todos, então cada cliente vai usar a peça à sua maneira", diz ela sobre as possibilidades do loungewear, que, de fato, conversam com a liberdade almejada pelos clientes mais jovens.
Mas nem só de simplicidade se alimenta a estética doméstica. Olhando para os aposentos de Ana da Áustria, no Museu do Louvre, no século 12, Nicolas Ghesquière partiu do conforto do lar da rainha da França para pensar um verão opulento e com referências da arquitetura do quarto da monarca. O papel de parede atraiu estampas, enquanto o piso de madeira foi representado em discos do material aplicado em bermudas e calças.
Tudo para guiar o passeio pela intimidade de Ana, como o estilista à frente do feminino da Louis Vuitton desejou: "Celebrar a arte de viver e vestir-se, primeiro, para si mesmo". A narrativa por trás da coleção, segundo Andreia, é uma forma de colocar o simples em um lugar extraordinário sem parecer alienado. "Vivemos em um contexto social extremamente tensionado de crise global, então destaque o dia a dia é um jeito de não se descolar da realidade."
A Miu Miu também colocou o pé no chão ao apresentar uma descoberta de aventais em seu mais recente desfile. "Nós, da moda, sempre conversamos de glamour ou de pessoas ricas, mas também precisamos considerar que a vida é muito", destacou Miuccia Prada aos jornalistas, e seguinte: "Para mim, o avental representa essa vida e difícil real das mulheres ao longo da história, dentro do lar". Enquanto a economia do cuidado permanece invisibilizada, a diretora criativa usa a presença literal do avental como grito na passarela.
"Ao carregar essa estética da rotina, a pessoa se distancia da imagem de futilidade. É a moda tentar mostrar que é antenada, útil e cabe no seu dia a dia", considera Andreia. A tal intenção por trás desse visual despojado é menos sobre formas largas e lingeries à mostra e mais sobre performance e manifestação de estilo de vida. A mensagem é uma só: veja-se como se sentir melhor e isso estará na moda.









