Por que as gigantes internacionais do fast-fashion não param de chegar ao Brasil?
A Bershka, marca queridinha dos jovens na Europa, desembarca no país no primeiro semestre, dando sequência a outras estreias do varejo em 2025. Entenda como o cenário econômico brasileiro é peça-chave nesse boom
Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil. Do cinema — que já é chover no molhado falar como a mídia e o público internacional estão vidrados em Wagner Moura, "O Agente Secreto" e companhia —, à música passando pela moda, foco desta matéria, o nosso país vive momentos de glória e virais.
Queridinha dos jovens descolados na Europa, a Bershka é a mais recente marca de fast-fashion a desembarcar no Brasil. A marca faz parte do grupo espanhol Inditex, conglomerado de moda por trás das marcas Zara, Pull&Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho e Zara Home. Segundo eles, a novidade se torna realidade no primeiro semestre de 2026. "A Bershka abrirá sua primeira loja no mercado brasileiro no Morumbi Shopping, em São Paulo, e lançará sua própria plataforma online no Brasil", anunciou a empresa um mês após a inauguração de uma boutique da Zara em Trancoso, na Bahia.
A lista de expoentes da moda internacional aterrissando em nosso país segue com a sueca H&M, que já anunciou mais cinco novas lojas em 2026, sendo duas no Rio Grande do Sul, duas no Rio de Janeiro e uma em Sorocaba; Shein com pop-up stores oito cidades do país nos últimos quatro anos e a Dover Street Market, multimarcas criada pela estilista Rei Kawakubo e o seu marido Adrian Joffe. A loja, famosa por sua curadoria afiada, chega em São Paulo ainda neste ano com etiquetas que, até então, não vendiam no Brasil, como Simone Rocha e Junya Watanabe.
Yes, nós temos o molho
Diante desse cenário, uma questão foi colocada à mesa: o que tem atraído essas gigantes para o país neste momento? A resposta é multifatorial, mas a economia ajuda a unir as principais pontas desse quebra-cabeça. Um relatório divulgado pelo Banco Central em dezembro aponta que o investimento estrangeiro no país foi o maior dos últimos 10 anos, somando US$ 84,1 bilhões entre janeiro e novembro de 2025.
Segundo Juliana Inhasz Kessler, doutora em economia e professora do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), essa melhora econômica resgatou um lugar de destaque do Brasil como referência em vestuário no mundo. "Voltamos com um contexto macroeconômico de mercado de trabalho aquecido, taxa de desemprego com mínimas históricas e aumento de renda. Além disso, o Brasil se tornou um país barato com a taxa de cambio elevada, ou seja, passamos por uma depreciação da moeda local frente ao dólar", o que é visto com bons olhos pelas empresas internacionais.
Território atrativo, próximo passo: estruturar a chegada e permanência na nova praça de atuação. Essa etapa, para a Juliana, é determinante. Trata-se de um pacote de medidas para o investidor externo ter segurança jurídica e fiscal para prever possíveis cenários para o negócio. "Quando a gente pensa na reforma tributária, ainda que ela seja alvo de reclamações entre produtores nacionais, ela visa transparência e previsibilidade um pouco maior. Elementos como esse fazem o investidor externo olhar para o Brasil com outros olhos", afirma a especialista.
Metade do caminho andado, as empresas se deparam com clientes sedentos por novidades e atravessados por um desejo de consumo com chancela eurocêntrica. "No Brasil, o mercado ainda não está saturado. É um público gigantesco e que continua buscando produtos de diversas qualidades, do premium ao fast fashion", considera Juliana sobre o mapa de ouro para essas gigantes se conectarem com os brasileiros.
Relações internacionais: como fica a produção local nessa conversa?
Para além da relação entre marca e consumidor, a presença deles tem que ser sustentável para o ecossistema financeiro do país como um todo. Ainda que nem sempre essa balança esteja em equilíbrio, algumas medidas ajudam a balizar, como a tributação mínima de 15% sobre os lucros de grandes multinacionais que entra em vigor neste ano.
A medida ajuda a garantir que o lucro movimentado por essas gigantes permaneça em certa quantia em território nacional e estimula que "Essa tributação não expulsou ou diminuiu o apetite das empresas", explica a economista, destacando também que essa porcentagem é tímida comparada a outros países. "O mercado apresenta oportunidades positivas que aparentemente compensam isso."
Já a produção local vive outra realidade, como reflete Juliana. "No Brasil, os custos de produção são no geral mais altos não por questões tributárias, mas por mão de obra, capital e tecnologia, que são potencialmente mais caros por fatores como disponibilidade e qualificação." Uma realidade atravessada por um problema e uma solução de escala continental, assim como a proporção do país.









