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Um Só Planeta
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Entre alegorias opulentas e fantasias exuberantes, o Carnaval carrega uma estética superlativa. O exagero, socialmente aceito e valorizado nos quatro dias de folia, parece funcionar como uma espécie de fuga ao minimalismo criativo dos demais dias do ano. A máxima do "menos é mais" não faz sentido neste contexto — ou será que sim?

Quando a dançarina Mariana Pinho passou a trabalhar no barracão da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, em 2002, foi justamente o excedente que chamou a atenção dela. "No meio de um dos processos mais sofisticados do mundo, comecei a reparar não apenas no que nascia, mas no que sobrava", lembra a brasiliense, que, em 2020, fundou o Sustenta Carnaval.

O projeto de economia circular reaproveita e recicla fantasias deixadas após os desfiles na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, que teriam os aterros sanitários como destino. Até 2025, mais de 66 toneladas de peças foram destinadas para o galpão do projeto, onde os foliões podem comprar itens a partir de R$ 10.

Mariana Pinho, fundadora do Sustenta Carnaval — Foto: Eliane Góes
Mariana Pinho, fundadora do Sustenta Carnaval — Foto: Eliane Góes

"Milhares de fantasias com poucas horas de vida útil seguem direto para caminhões compactadores e aterros por uma questão logística urbana, pois a cada 90 minutos uma nova leva de mais de 3.000 pessoas passa pela área. Na Sapucaí, entendi que havia um problema estrutural e também uma oportunidade enorme de criar uma solução de economia circular para o setor cultural", explica Mariana, que ainda exporta os garimpos para países como a Inglaterra.

O país, por sinal, tornou-se um aliado do pilar de educação do Sustenta. Uma articulação entre o governo do Reino Unido, a prefeitura de Londres e a organização Big Issue Invest resultou em um programa de capacitação de mulheres imigrantes e membros da comunidade LGBTQIAPN+ em processos de upcycling.

"O meu olhar é muito mais de customizar do que criar do zero. Consigo transformar um garimpo e deixá-lo irreconhecível. Hoje, penso que o design tem muito mais a ver com manualidade do que produção e resíduos feitos com matéria virgem", afirma Mariana, com uma mentalidade necessária para virar o jogo no manejo de sobras de tecidos para além do contexto de Carnaval. Segundo a S2F Partners, 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartados por ano, sendo que 4,6 milhões ficam concentrados no Brasil.

O galpão do Sustenta Carnaval fica na Rua Pedro Ernesto, 67,  Rio de Janeiro — Foto: Karen Eppinghaus
O galpão do Sustenta Carnaval fica na Rua Pedro Ernesto, 67, Rio de Janeiro — Foto: Karen Eppinghaus

Quem visita o galpão também é convidado ao exercício criativo. Por lá, cabeças com estruturas de arames inspiram armaduras, ombreiras ou o que a mente do folião permitir. Neste ano, produtores de conteúdo apaixonados pela celebração colocaram o Sustenta na rota de compras de fantasias no Rio de Janeiro.

DESPERDÍCIO ZERO

O plástico convencional e o isopor são alguns dos vilões do reaproveitamento de fantasias e alegorias no Carnaval, uma vez que essas matérias-primas não se decompõem por completo e ainda aumentam a emissão de CO2 e outros gases de efeito estufa. De olho nesse gargalo, a Beija-Flor de Nilópolis recorreu à tecnologia para dar vida a um desfile mais sustentável. A agremiação será a primeira a usar impressão 3D, que funciona a partir de uma sobreposição de camadas de um plástico reciclável derretido. O método, batizado de FDM, reduz o tempo de uma produção que levaria semanas para um dia e evita o desperdício de tecido e aviamentos, já que tudo é calculado milimetricamente.

Figurino criado com peças recolhidas pelo projeto e apresentado em uma exposição na Inglaterra — Foto: Divulgação
Figurino criado com peças recolhidas pelo projeto e apresentado em uma exposição na Inglaterra — Foto: Divulgação

A rainha da bateria da Unidos da Tijuca, Mileide Mihaile, também inovou na fantasia do ensaio técnico na Sapucaí, só que com um recurso menos high-tech e ainda assim surpreendente: 200 páginas de livros que seriam descartadas ganharam nova vida em um vestido, um costeiro e um acessório de cabeça. A escolha não é apenas sustentável, a produção foi uma conexão com a história da homenageada pela escola neste ano, a escritora Carolina Maria de Jesus, que teve a reciclagem como uma forma de sobrevivência antes do lançamento do seu emblemático livro Quarto de despejo.

A fantasia de Mileide Mihaile, rainha da bateria  da Unidos da Tijuca, com 200 páginas de livros — Foto: Divulgação
A fantasia de Mileide Mihaile, rainha da bateria da Unidos da Tijuca, com 200 páginas de livros — Foto: Divulgação

Segundo Lucas Andrade, stylist de Mileide, o look é uma metáfora da atemporalidade da escrita de Carolina. "As borboletas representam a metamorfose da invisibilidade social à força, da marginalização ao reconhecimento. É uma homenagem que une memória, arte e identidade", conta ele, que contrariou a ideia de que as quantidades estratosféricas de cristais ou plumas são a única forma de chamar atenção na avenida.

A lista de materiais sustentáveis passa por biodegradáveis, como a fibra de bambu, e pena fake, alternativa às ultrapassadas versões de origem animal. "A gente precisa pensar que a questão climática já bateu à nossa porta, então não é mais uma opção, e sim a única maneira para continuar", reflete Mariana. Se o Carnaval tem a liberdade como alicerce, essas soluções ganham a rua com um clima pra lá de favorável: pessoas disponíveis para repensar outras formas de consumo e do vestir-se e levar esses ensinamentos para o resto do ano.

Um Só Planeta — Foto: Divulgação
Um Só Planeta — Foto: Divulgação
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