Como as máscaras passaram de ritual sagrado a item fashion?
Elemento surpresa no look de celebridades no Met Gala, o sucesso do acessório hoje é explicado na Pré-História
Símbolo de identidade cultural, recurso para causar mistério e status de obra de arte, a máscara é de longe um item onipresente na história da humanidade e da moda. Se hoje o acessório carrega um ar de mistério, é porque na Pré-História elas surgiram como parte de rituais sagrados para ajudar na caça. Do mesmo jeito que o potencial artístico agregado ao objeto também passa pelo reconhecimento de como povos imprimiam sua identidade e valores religiosos nelas.
Quando artistas, como Katy Perry, Heidi Klum, Gwendoline Christie e Yseult, incluem máscaras em seus looks artsy em sintonia com o dress code do Met Gala, esses pilares são carregados, como explica a curadora e comunicadora de arte Carollina Lauriano.
“Vários fatores culturais e históricos levaram as máscaras a passarem de um ritual sagrado para um objeto estético. A arte moderna passou a valorizar o outro como objeto de investigação artística exótico, como Pablo Picasso olhando as máscaras africanas a partir das formas geométricas. Além disso, há fatores, como o turismo e o colecionismo, que passam a tratar as máscaras como objetos representativos”, diz a especialista.
Ampliando esse campo de atuação, na Idade Média, a nobreza contextualiza o acessório no vestuário. Primeiro, no século 13, como um recurso de anonimato para pular o carnaval de Veneza, assim como os plebeus. Enquanto, no século 16, mulheres dessa classe começam a usar uma versão oval do item, batizada de visard, para proteger o rosto do sol em passeios ao ar livre.
“Desde que a máscara foi cooptada pela moda, ela surge entre a ideia de status e poder aliado a um movimento de anonimato e liberdade. Há uma associação do acessório a essa ideia de você poder se transformar em uma outra persona, ser aquilo que não se é no seu cotidiano”, comenta Carollina.
Esse foi o ponto que levou a máscara ser uma das assinaturas da Margiela. Na coleção outono/inverno 1995, o estilista cobriu o rosto de todas as modelos para voltar a atenção do público para o look e não ao catwalk. O que acabou se tornando um recurso lançado por diretores criativos que assumiram a sucessão.
Na temporada seguinte, Alexander McQueen também deu destaque ao acessório na coleção inspirada no poeta italiano Dante Alighieri, conhecido pela obra “Divina Comédia”, que trata sobre vida após a morte. Looks foram finalizados com máscaras pretas com uma escultura de um Cristo crucificado entre os olhos.
Outro artista que pautou criativos na passarela foi o pintor Richard Prince, famoso por uma série de quadros com enfermeiras. Em 2008, Marc Jacobs estava à frente da Louis Vuitton e mascarou 12 modelos caracterizadas de enfermeiras como homenagem a Prince.
Ou seja, há um ciclo que se retroalimenta, quase que uma cadeia alimentar: pessoas endereçam ou esconde a identidade nas máscaras, que inspiram artistas e designers e, assim, consagram o objeto como esse elemento sagrado por todos esses encontros.









