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Um Só Planeta
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Às vésperas da COP30 — Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas —, Belém se prepara para receber o mundo. Para além das reformas e da infraestrutura de apoio criada na região, o que está em jogo ultrapassa a logística e diz respeito a uma faceta simbólica: pela primei ra vez, a Amazônia será o centro da principal conferência climática do planeta, o que exige uma redefinição do papel desempenhado pelo Brasil, que se coloca no palco global como parte da solução. "Não basta sustentar os protocolos que nos trouxeram até aqui. Estamos num momento de regeneração", diz Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talano, que se dedica à política climática.

Essa virada tem ganhado corpo em uma série de ações, como o crescimento do investimento em fontes de energia renovável, a ascensão de novas vozes — de ativistas a lideranças indígenas — e a sanção da Lei nº 15.042/24, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), um mercado que move incentivos à descarbonização. Ainda, em agosto deste ano, entrou em vigor a Lei nº 15.183/25, proibitiva do uso de animais para testes na produção de cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumes.

Brasil sob os holofotes

Em meio às transformações, a COP30, marcada para novembro, extrapola o papel de grande encontro de nações e coloca a Amazônia no centro das decisões sobre o futuro climático. No mesmo mês, o Rio de Janeiro recebe o Earthshot Prize, prêmio criado pelo príncipe William para reconhecer soluções inovadoras de restauração e proteção do meio ambiente e alavancar o progresso nos maiores desafios ambientais até o final desta década.

Natalie avalia que estamos em um caminho frutífero. "A solarização [adoção da energia solar] está se tornando o novo normal. Já em 2026, o crescimento das fontes renováveis deve superar qualquer outra fonte na história", celebra. O Brasil atingiu 50 gigawatts de energia solar instalada em 2025 —cinco vezes mais que em 2022. Estamos falando de uma expansão descentralizada, espalhada por diferentes regiões, o que ajuda a reduzir desigualdades no acesso à energia limpa.

Além disso, a Mapbiomas apontou queda de 32,4% nas áreas devastadas de todas as paisagens brasileiras em 2024. "Quando o Brasil reduz o desmatamento, outros países também reduzem. A gente sobe a régua", explica Natalie. Para fundamentar as próximas decisões do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o governo elaborou de forma colaborativa o Plano Clima, que apresenta 20 programas setoriais — do turismo à infraestrutura — com o objetivo de preparar diferentes áreas da economia para o enfrentamento aos impactos ambientais.

Os desafios, porém, continuam. O País bateu recordes de queimadas no Pantanal e na Amazônia em 2024, e a melhora em 2025 ocorreu a partir das condições climáticas mais amenas. "Temos dados mostrando que, em algumas décadas, a praia de Copacabana pode não ser mais a mesma. Não é só paisagem, é impacto real", alerta.

Para ela, o momento exige aceleração: "Estamos muito perto do limite de 1,5ºC de aquecimento global. Cada tonelada de carbono emitida hoje nos aproxima de um ponto sem volta. Não dá para esperar algo grandioso acontecer para depois agir. Precisamos transformar resultados pontuais em políticas de longo prazo. Esta década é decisiva".

COP30 e mais: a importância do debate sobre sustentabilidade — Foto: Mylena Saza/Arquivo Glamour
COP30 e mais: a importância do debate sobre sustentabilidade — Foto: Mylena Saza/Arquivo Glamour

O que está em jogo nesta COP30?

A COP, resume Natalie, é "o encontro global para decidir como resolver a crise climática". Todos os anos, quase 200 países negociam saídas diante do aquecimento global. "É uma conversa muito difícil. Precisamos construir uma visão coletiva e dar sinais para a direção correta. Fazer o mundo inteiro olhar para a Amazônia não de uma forma romantizada, mas empática. Não dá para protegermos a maior floresta tropical do mundo sozinhos."

A agenda está organizada em seis eixos principais: transição energética, adaptação, financiamento, preservação da natureza, perdas e danos, e inovação produtiva. Dentre os temas, Natalie destaca a importância do debate sobre petróleo. "Enquanto a gente não acelerar a saída do petróleo, não conseguimos avançar. Não adianta só reduzir o desmatamento. Quanto mais rápido decidirmos a transição, menos Amazônia seca, menos Pantanal em chamas, menos cidades em enchentes", alerta. Em sua avaliação, a COP30 também colocará em pauta a identidade brasileira. "Sempre fomos o Paísdo 'petróleo é nosso', mas o Brasil, hoje, tem outro perfil e outras oportunidades. Depois da COP, podemos ter uma nova autoimagem. Isso é muito forte."

A sustentabilidade na prática

Repensar o mundo sob o ângulo do planeta pode parecer algo distante, restrito a cúpulas internacionais e compromissos corporativos, mas, como ressalta a ativista Giovanna Nader, porta-voz do clima pela ONU, tudo começa nas escolhas: "Nosso maior poder como indivíduos é o voto. Se votarmos em políticos ambientalistas, já temos um grande passo. A mudança vem a partir de leis".

No dia a dia, a transformação começa pelos hábitos de consumo. "Vivemos na sociedade do excesso. Compramos mais do que precisamos, e isso impacta o planeta e o nosso bolso", aponta. Priorizar produtores locais e agroecológicos significa investir na própria saúde e em famílias que respondem por 70% da produção de alimentos no Brasil.

Já a reciclagem também pode ser aplicada na rotina a partir de um senso de comunidade. "Os povos originários nos ensinam isto: ninguém faz nada sozinho. A mudança só acontece em corrente", lembra Giovanna. Separar resíduos, adotar uma composteira doméstica, comprar a granel, reduzir desperdícios, evitar embalagens plásticas: atitudes simples são a faísca para o impacto. "Tudo que é sustentável é feito para durar. Quando você começa a hackear o algoritmo do sistema capitalista, percebe que dá para viver de outra maneira."

A sustentabilidade não é, e nem deve ser, preocupação somente de ativistas ou compromisso de governos, mas estar nos nossos hábitos e escolhas diárias. É social, porque cria pertencimento. É econômica, porque movimenta novos mercados. É saúde, porque se traduz em bem-estar. Basta dar o primeiro passo e trabalhar para que cada mudança leve à próxima.

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