Todo corpo é atlético: mulheres rebatem e resistem à gordofobia no esporte
Os benefícios e a satisfação vindos da prática rotineira de exercícios físicos são incontestáveis. Entretanto, a gordofobia ainda é o forte elemento que afasta corpos fora dos padrões de beleza do esporte. Aqui, mulheres incomodadas com a opressão resistem, inspiram e contra-atacam
O primeiro contato da paulistana Barbara Lobato com o esporte foi na ginástica artística. Ela procurou as aulas, à época na escola, e descreve a experiência como um choque. "Uma amiga me contou que os alunos da sala haviam dito, pelas minhas costas, que eu era desengonçada, que me assistir era feio, porque eu era gorda. Entendi ali que, se você não é alguém dentro do padrão, as pessoas não querem te ver", lembra. Quando isso aconteceu, ela tinha 12 anos, mesma época em que começou a prestar atenção no próprio reflexo no espelho. Até então, seu corpo não era uma questão. O impacto foi tão profundo que ela abandonou a prática. "Não acho que a academia seja um lugar acolhedor para pessoas gordas, assim como outros espaços esportivos. Tive a sorte de encontrar muita gente gentil, mas ouvi muitas conversas sobre como você está ali para mudar de vida e emagrecer. Sempre acabei largando as atividades físicas. Em algum momento, passava a ficar com vergonha", conta.
Aos 25 anos, a jovem entra para a estatística levantada por uma pesquisa das marcas Nike e Dove, divulgada em março deste ano. Dados mostram que a falta de confiança corporal é o principal motivo pelo qual meninas deixam de praticar esportes. Quase três entre quatro meninas pensam ou já pensaram em desistir de se exercitar devido a preocupações relacionadas à autoimagem, aponta a pesquisa. Além disso, aquelas que se declararam com baixa autoestima também têm quase três vezes mais probabilidade de abandonar as quadras. Para efeito comparativo, é o equivalente a 2,5 vezes mais que meninos. O levantamento apontou ainda que 39% daquelas que deixam de praticar esportes já ouviram que não têm o corpo certo, enquanto 47% foram zombadas, criticadas e provocadas por seu tamanho.
"Fui atleta por muitos anos e me distanciei do esporte por vergonha e insegurança", conta Letticia Muniz à Glamour. "Acho que os espaços dedicados à prática de atividades físicas não estão preparados para nos receber. Isso vai dos equipamentos que não cabemos aos profissionais que nos atendem. Há muitas pessoas desta área e da área da saúde que são gordofóbicas. Uma vez, ao tentar me matricular em uma academia, quem me atendeu simplesmente não entendia que eu não estava interessada em emagrecer", relata a apresentadora e líder do projeto Big Girls Club, de incentivo à prática esportiva para mulheres fora dos padrões. "Antes, eu enxergava os exercícios como fonte de prazer. A partir da insatisfação, quando você passa a ver como um meio de perder peso, essa relação fica desgastada. Um dos objetivos dessa minha iniciativa é devolver a felicidade na prática física e resolver aquela sensação de que é um lugar ao qual você não pertence ou que estão todos te olhando", afirma.
No perfil do Instagram @biggirlsclub, a professora de educação física Karol Camargo ministra treinos que podem ser feitos em casa, na academia do prédio, no parque — ou seja, no cenário em que a praticante se sinta o mais segura possível, sensação fundamental para total entrega e satisfação daquele momento. "Como educadora física com viés de promoção de saúde, me sinto responsável por trazer uma narrativa esportiva acolhedora e acessível, inclusive financeiramente. Busco mecanismos para que as pessoas, sejam elas gordas, pretas, trans, tenham a possibilidade não só de se sentir confortável para praticar exercícios, mas também conseguirem permanecer no esporte. Eu escuto as subjetividades e trabalho a partir disso", conta a especialista, que também mantém uma academia própria no centro da capital paulista.
Os benefícios desse olhar são comprovados: o mesmo levantamento citado também fala sobre a importância do treinador nessa jornada. Ainda de acordo com a pesquisa, 84% das meninas disseram já se sentir desmotivadas por seus coaches esportivos em algum momento, ao mesmo tempo que, entre as que seguiram na prática, 88% acreditam que a mesma figura foi essencial para que se sentissem mais confiantes. "O que mais recebo, hoje, são pessoas que não se sentiam devidamente cuidadas e assistidas nos treinos. Elas procuram por uma professora que não será uma fonte de julgamento, que é compreensiva, que vai entender se ela está menstruada e por isso não dará o melhor de si naquele dia", relata Karol.
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Corpo é instrumento de realização
"Quando falo de autoestima, falo verdadeiramente de liberdade. Não vou deixar de me amar porque sou gorda", introduz a empresária e palestrante Ju Ferraz, idealizadora do evento Body, dedicado às discussões sobre corpo positivo, autoestima e liberdade emocional. Para ela, que conduz rodas de conversa e cria conteúdo sobre o assunto, é preciso se apropriar das potencialidades do corpo que temos em vez de acreditar no conto do emagrecimento pararealização pessoal, inclusive quando falamos dos espaços a serem ocupados. "Sou de uma geração em que o certo era ser magra. Cresci como uma adolescente fora do padrão e, na vida toda, o exercício físico me foi apresentado como uma forma de emagrecer, e não de alcançar outros objetivos. Até hoje, não sou uma pessoa que gosta de se exercitar, porque não me sinto bem em fazer isso ao lado de outras pessoas. Temos a obrigação de transformar esses ambientes para as próximas gerações", argumenta.
Para Karol, uma das formas de alcançar esse objetivo é bater na tecla da representatividade. Não somente em campanhas publicitárias, mas como busca individual também. "O maior conselho que dou para quem quer ser mais ativa é buscar os seus semelhantes. Hoje, com as mídias sociais, nós vivemos em rede. Olhe para o lado e procure por quem pode te entender e acolher. Depois que você encontra um grupo seguro para estar, dificilmente terá vontade de parar, em razão de todos os benefícios que a prática de atividade física traz para a vida." Outro ponto é insistir em experimentar. "Ninguém precisa fazer corrida só porque está todo mundo fazendo; existe uma infinidade de modalidades a serem exploradas. Com certeza existe uma com a qual você se identifica", defende.
Por último, cuide da saúde mental para dissociar o hábito da prática física à punição por ter exagerado na sobremesa ou como um caminho de sofrimento em busca de baixar a numeração da calça jeans. Existem vários outros motivos para se exercitar: altas doses de endorfina, o hormônio do bem-estar, correndo pela circulação e ideias organizadas são só dois deles. Esse é o conselho pessoal da editora que lhe escreve; finalizo com um #estamosjuntas de alguém que também está tentando ressignificar o esporte na rotina.
Influência positiva: Uma seleção de perfis para te inspirar a calçar um tênis e sair para curtir seu corpo em movimento
Nati Mota (@saudegg)
Logo na bio do Instagram, a professora de educação física Nati Mota avisa a que veio: "Vamos juntas melhorar sua relação com os exercícios físicos". Nos posts, ela divide ideias de práticas e depoimentos inspiradores, mas nada naquela vibe #NoPainNoGain. Leveza é a palavra por aqui!
Letticia Muniz (@biggirlsclub)
Treininhos de ioga e funcional feitos por uma educadora física especializada em saúde? Temos! Capitaneado por Letticia Muniz (@letticiamuniz), o perfil conta com o suporte profissional de Karol Camargo (@kaarolfc) para quem quer se mexer livremente – vale até na sala de casa.
Mais em Condé Nast
Ellen Valias (@atleta_de_peso)
Ellen Valias é professora de educação física, meia--maratonista e defensora dos exercícios sem viés de punição ou qualquer agressão do tipo. Aqui, ela compartilha as próprias conquistas e desafia estereótipos, falas preconceituosas e comportamentos nocivos à saúde mental.
Laís Roberta (@larobertita)
Ícone fashion e gata de academia neste guichê! Em seu perfil pessoal, a historiadora Laís Roberta tem dividido uma espécie de diário de descobertas do próprio corpo no esporte. "Se é ano de colheita, eu tô pronta pra colher quadríceps tão grandes quanto troncos de árvores", escreveu em um post. Avisa!
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